12.8.13

O Tóino da Bernarda

O Chico deu-me uma palmada no ombro quando me passou o café por cima do balcão. Quando virou os olhos para o lado esquerdo, percebi que vinha ali história. Soprou-me baixinho: "O Tóino da Bernarda anda amigado!". O Tóino estava numa mesa de canto, sózinho. Em cima da mesa, uma chávena de café e o Correio da Manhã, o que significava que já lá estava havia muito tempo (quem primeiro o apanha, não o larga). Olhava fixamente para o telemóvel. O Tóino da Bernarda com telemóvel? O olhar fixo fez-me lembrar, sei lá, o do Golem, com o anel na mão. A qualquer momento, esperava ouvir um "my precious!". O café estava calmo. Conseguiam-se ouvir as moscas a torrar na armadilha infernal do Chico. E de repente, um chilreio do telemóvel. Puxou os óculos de ver ao perto mais para a frente do nariz (o Tóino já fez sessenta anos há uns tempos), arregalou os olhos e enquanto lia, um sorriso rasgou-lhe a face enrugada e tostada do Sol. Puxou o boné para cima, colocou a língua ao canto da boca e pica, pica, pica, começou a dedilhar nas teclas do telefone. Olhei para o ar deliciado do Chico: "Tem estado assim desde que chegou. Diz-se que anda a levar a Nandinha, sabes, a mulher do Esmerado, a conhecer as oliveiras que por lá tem nas terras dele..." Ora a Nandinha tem menos vinte anos que o Tóino. E é moça para mandar SMS e tudo. O bom do Tóino lá teve que se converter às novas tecnologias. Quando acabei de tomar o café, terminou finalmente o seu penoso teclar. Logo colocou o olhar fixo no ecrã, junto aos olhos. À minha frente, o Chico quase chorava a rir. E o telemóvel chilreou novamente, quase de seguida. Pelos vistos, a Nandinha tinha os dedos rápidos. O olhar do Tóino abriu-se e até a placa lhe saltou quando deu uma gargalhada que encheu o café. O que o amor não consegue fazer? Até o Tóino da Bernarda já namorava por SMS. Eu aproveitei e pedi mais um café e um pastel de nata ao Chico, um bom pretexto para ficar a gozar o prato. O Chico foi limpar as lágrimas, disfarçadamente.