10.8.13

Sábado de manhã no café do Chico

Depois de me levantar, com a preguiça do Sábado ainda a prender os tornozelos, vou-me arrastando devagarinho até ao café do Chico. A torreira da manhã já me coze os miolos. A Dona Justa, a vizinha do lado, apanha-me, eu ainda de boca escancarada a bocejar. Lá disfarço e cumprimento com o melhor sorriso que consigo fazer: "Bom dia Dona Justa!" Ela retribui, dizendo que está a fazer os rissóis. Já o dia me vai correr melhor. Não há rissóis como os da Dona Justa. E ela leva-mos ainda antes do almoço. Estaladiços, quentinhos, nos meus ela põe dois camarões em vez de um. Digo-vos, palavra de honra, os melhores do mundo. Chego ao café do Chico. O Chico é amigo do peito. Vou lá desde os tempos em que ainda se conseguia discutir um jogo do Boavista com o Farense. Desde o século passado, portanto. Já disse que o café do Chico tem moscas? Há uns anos, farto de ouvir as queixas da freguesia, o Chico arranjou uma espécie de torradeira para apanhar as ditas. De vez em quando, está a malta na palheta e ouve-se um som assim "fshhh". Pimba! Esta já não vai aterrar no meu pastel de nata. O café do Chico tem moscas, mas os pastéis de nata parecem os de Belém. A mulher do Chico, que faz as vezes como doceira, tem "O Segredo". Diz-se (mas ela nunca confirmou) que em tempos trabalhou em Lisboa, na Antiga Fábrica. Nunca se saberá de onde veio a sapiência, mas a mulher do Chico não tem mãos a medir para as encomendas. Pode ter um buço à alemã, mas faz uns pastéis do Céu. No café do Chico vamos pondo a escrita em dia. Sobre a malta cá do sítio que fugiu com brasileiras, por exemplo. Há uns tempos, era quase mensal. As brasileiras foram aparecendo: "Amooorrr, cê mi paga um café?" E tudo começava no café do Chico. Olha, o Joaquim da Mata, por exemplo. Acabou por vender a quinta e foi para o Brasil. Toda a gente sabia que a Jocelinda andava a dizer "Amooorrr" a metade da terra, e a outra metade estava em fila de espera, mas o Joaquim, se sabia, não se importou. Bastava ela dizer-lhe "Amooorrr", baixinho ao ouvido e até se via o boné dele a saltar. No café do Chico há sempre o Correio da Manhã, que roda pela malta toda. O Dr. Felismino leva o Expresso e gosta de discutir as gordas comigo. Já sei que hoje me vai falar daquele simpático ministro, que foi mais um a petiscar na tasca do Oliveira. Ainda comprou as acções a bom preço, o Rui. O Oliveira era amigo. Menos de metade do que elas custavam na altura. Olho para o negócio, o Rui. Como a Jocelinda, consultora do Joaquim da Mata, que também lhe ficou com os ouros da família, a bom preço. Tinha cá um olhómetro, a Jocelinda. O Dr. Felismino leva estas coisas muito a peito. Acaba sempre com aquela frase, que fica bem no café do Chico: "Cambada de abafadores." Toda a gente abana gravemente com a cabeça. Mas eu, por essa altura, já vou estar é a pensar nos rissóis da Dona Justa. Os gajos podem ser todos uns marmanjões, mas naqueles rissóis é que não ferram o dente.