15.9.13

Ao Domingo gosto de ler os horóscopos


Leio os horóscopos da Maya no Correio da Manhã de hoje, à procura do que me dará mais jeito. Bons conselhos, todos de seguir: “Aproveite a conjuntura com sabedoria e sagacidade” (já cheiro os pastéis, a minha sabedoria e sagacidade aumentam), “Dia irregular, mas terá horas de produtividade” (é Domingo, é bom saber que posso ser tão produtivo), “Hoje conseguirá desbloquear alguns assuntos” (boa altura para tratar do portão, que anda perro e a chiar”. É cedo, estou sozinho no café. Apenas o Chico me acompanha, do outro lado do balcão, a limpar copos. Com um olho no jornal e outro no papel onde vou rabiscando estas linhas a esferográfica, consigo vê-la a cruzar a porta. Vem só, a Luísa. Apressada como sempre, aquela rapariga. Dispara as palavras como o Cristiano chuta penáltis. Porque diabo o CR tem que andar a mostrar a roupa interior no Correio da Manhã é um dos grandes mistérios da humanidade, quem comprará cuecas com logótipo CR7, um mistério ainda maior. “Há quanto tempo”, diz-me ela, beijos fulminantes na face, saudades daqueles lábios. O Chico, lambão, diverte-se. Foi buscar a mulher, o safado. Quer companhia de coscuvilhice, está visto. A Luísa continua a sua rajada de palavras, que eu percebo apenas pelos lábios dela. A sábia Maya murmura baixinho lá das páginas do Correio, “Aumente a possibilidade de um envolvimento; não reme contra a maré.” Claro que remo contra a maré, ganhava uma regata Oxford-Cambridge, a remar em Skiff, agora. A Luísa fala-me da filha, de como foi escolher a residência universitária, como está tudo pela hora da morte. A filha da Luísa, tão parecida que podia ser gêmea da mãe quando ela foi estudar para outro sítio, também. Para onde a filha vai agora.  A filha da Luísa namora, o namorado já lá está. São outros os tempos. O Chico estica a orelha, parece o Dumbo. Daqui a pouco já lhe digo. Quase não temos tempo de falar, a Luísa vem buscar os pastéis de nata da mulher do Chico, está de regresso dali a pouco, foi apenas visita rápida à terra. Toque de mão, não tão rápido, não tão casual. Os dedos deslizam, lentos. O Chico olha para um copo no ar, fingindo ver o reflexo. Beijo de despedida. E então, quando as caras se separam já, ela sussurra-me: “Lembras-te?” Apanha-me desprevenido, de guardas levantadas. Tantos anos depois? Apenas aceno com a cabeça, imperceptivelmente, apenas para ela. Sai tão rápida quanto chegou, fico a ver o carro a afastar-te. O Chico pisca o olho à mulher, cúmplice. Ele já me conhecia quando a Luísa saiu para ir estudar. O Dr. Felismino está a entrar, com o Público na mão. Vinha a ouvir as notícias no rádio. Sei que vai falar dos vinte milhões que o CR7 vai ganhar por ano por renovar com o Real Madrid. E ainda assim precisa de vender cuecas. Ah, a humanidade está cheia de mistérios. Levanto-me e vou pedir meças ao Chico, que esteve a gozar o prato. Ele dispara-me uma palmada no ombro. Dá-me um café e três pastéis e diz-me baixinho: “Estes são por conta da casa.” Sábio o Chico, sábio. Mas disso nunca tive dúvidas.