1.9.13

As 50 sombras da lei

Estava a dar a segunda dentada no pastel de nata quando reparei no Pedro da Criação, na mesa em frente,  olhar fixo no jornal d’O Crime. O Dr. Felismino ia discorrendo sobre os malandros dos Ingleses que se cortaram quanto à Síria: “Veja lá que os deputados deles ainda são mais cobardolas que os nossos. Falam, falam, mas quando chegou a hora da verdade, borraram-se.” Eu abanei com a cabeça, em assentimento. Sempre fui anglófono, mas ainda assim achei que os briosos MP’s se acagaçaram com o Assad, ou então há muito dinheiro sírio e de arredores a circular na City, muitas casas em Mayfair, muitas compras no Harrod’s. E o Dr. Felismino voltava à carga: “E ontem li na Internet...”, o Dr. Felismino lia a Internet de ponta a ponta, e repetiu: “Ontem li na Internet que a lunática da Sarah Palin disse que o melhor era deixar que Alá desenrascasse os Sírios. Pode lá haver coisa mais idiota?” Mais uma vez a minha cabeça deu sinal de concordância, mas o olhar vago do Pedro intrigava-me. Aproveitei o pretexto de ir pedir o meu terceiro pastel de nata para fazer diligências junto do Chico. Tinha visto a mulher dele vir com uma fornada de pastéis ainda a fumegar e a minha gula não resistiu. O Dr. Felismino bramava agora contra os Maduros das Universidades de Verão, mas eu estava fisgado era nos pastéis. Apontei com o queixo para o Pedro da Criação e o Chico percebeu. Puxou-me para ele, para me segredar ao ouvido: “É por causa do tribunal. Está de trombas desde sexta.” Eu recordava-me que havia qualquer coisa com as terras e um processo que o Silva do Beco lhe tinha colocado, quando o Pedro começou a alapar-se às terras dele. A pouco e pouco foi movendo a cerca e um dia o Silva, que vivia em Lisboa em casa da filha, descobriu, já o Pedro se tinha apropriado de quase um hectare. “O juiz obrigou-o a devolver as terras ao Silva e ainda teve que pagar cinco mil euros de indemnização. Ele está que nem uma barata, diz que ao juiz não percebe nada da poda, que ele ia cuidar das terras melhor que o Silva, que as tinha abandonadas, que ele é que sabe, que se vai queixar ao tribunal dos Direitos do Homem.” Os olhos do Chico não me enganavam, já o conheço desde os bancos da escola, ele estava contente com a rabecada que o juiz deu ao Pedro. Mas eu já me debatia com uma questão muito mais importante: se o cômputo final fossem cinco pastéis de nata antes do almoço, ainda ficaria com fome para os rissóis da Dona Justa? Quantos graus de cinzento teria a minha larica? Quando olhei para o Pedro da Criação, ainda tinha o olhar na mesma página, enquanto os meus cinco pastéis já ninguém mos tirava. A minha fome não tem nuances e a minha decisão estava tomada. Ainda longe, já sentia o cheiro dos rissóis a fritar. A Dona Justa nunca me falha. E o Pedro, com a cara com que estava, nunca apreciaria um petisco como o que me aguardava para o almoço. Afinal, Deus é grande e aposto que até gosta dos pastéis da mulher do Chico e dos rissóis da Dona Justa.