8.9.13

Caras brilhantes como o Sol

Verdes, como uma folha de figueira. Os olhos da Jacinta são verdes assim e o Zé Maciel anda aluado por eles. Foi o Chico que me disse: “O Maciel, o da Conservatória, anda perdido de amores pela Jacinta.” Acho que ele disse mais a palavra “amalucado.” Hoje cheguei cedo, consegui o “Correio da Manhã” e a revista de Domingo, Deus é grande. O Dr. Felismino há-de aparecer daqui a pouco, vamos falar das gordas. O neto dele andava para entrar para a Faculdade, queria seguir a vida do avô, que o pai, esse foi um estroina, sempre a torrar o dinheiro do consultório. Hoje o Dr. Felismino já deve saber se será o neto a herdar os seus pacientes, o filho está demasiado ocupado a auscultar a Laurindinha, uns bons vinte anos mais nova, a sua quinta mulher de papel assinado. O Zé Maciel olha para a porta, espreita pela janela, esfrega as unhas a poli-las, volta a fixar a porta como se quisesse tirar as dobradiças com os olhos. Coitada da Rita Pereira, foi obrigada a repousar, segreda-me o Correio da Manhã. O Zé Maciel rói as unhas. Ah, que o amor é fatal para a cutícula. Tenho que sugerir ao Dr. Felismino receitar ao Zé uma cura de descanso também, como a Rita Pereira, ou o Felismino Filho, que esse repousou a vida toda. A mulher do Chico segreda-me: “Ele chega às nove, e a Jacinta só aparece às dez e meia. E olha que ela não lhe passa cavaco...” Os pastéis de nata que me queimam o céu da boca, divinos, acabados de sair do forno,  aguçam-me a atenção. Agora reparo, o Zé Maciel tem uma coisa na mão, enroladinha. O Dr. Felismino vem lá ao longe, hoje com o neto ao lado. O olhar de orgulho não engana, já tem sucessor. O Dr. Felismino cruza a porta, com um “Bom dia” de vozeirão. O Zé distrai-se e abre a mão. A folha de figueira cai na mesa. Verde, como os olhos da Jacinta, que tarda. A Jacinta que vai chegar daqui a bocado e nem sequer olhar para ele. Mas ele tem a folha com a cor dos olhos dela. Eu tenho ainda um pastel de nata, quente, estaladiço à minha espera. E o Dr. Felismino tem a cara brilhante como o Sol. Pela janela, vejo a Jacinta, sozinha a andar para o café. E então, num impulso, levanto-me, vou-me ao pé do Zé Maciel e digo-lhe baixinho: “Deixa-te de merdas e diz-lhe de uma vez.” Ele sobressalta-se, atrás do balcão o Chico, que percebeu, aperta o braço da mulher, a folha da figueira cai mais uma vez, a Jacinta senta-se na mesa ao pé da porta, os olhos ainda mais verdes da luz da manhã. O Zé Maciel pigarreia, bebe um gole de água, folha de figueira guardada no bolso, ajeita as calças, puxa as mangas da camisa para cima, ensaio o passo e avança, face destemida, olhos brilhantes. Hoje é o dia.