27.9.13

Sobre os picanços na condução

Kudsi Erguner

Ia eu descansado na auto-estrada, a pensar em como é linda a vida (como diria o Miguel Esteves Cardoso), quando ao lado uma potente quadriga, surge vinda do além. Faixas vazias, até onde a vista conseguia vislumbrar, num flash (ahah) me vêm à cabeça as imagens épicas do Ben-Hur. Existem diferenças, e bem óbvias, entre o asfalto à minha frente e a ausência dele no Coliseu de Roma (pelo menos do que me recordo, dos preciosos escombros). Mas eis que o condutor ameaça picar-me, talvez para testar a obediência dos equídeos provenientes da Floresta Negra que relinchavam debaixo do meu capot, talvez para me testar a mim, humilde encartado, relutantemente picável. Ainda pensei que, das belíssimas jantes (intuí, porque a velocidade não permitia prova científica) pudesse emergir um espigão que me desfizesse os raios das rodas, atirando-me para fora de corrida improvisada, em vistosas piruetas. Judah Ben-Hur me senti naquele momento, quase me imaginando a espicaçar os cavalos esbaforidos, subjugados pelo acelerador, com um chicote imaginário. Nos altifalantes do carro, Kudsi Erguner lançava os primeiros acordes de Sharki. E por um momento, muito poucos segundos aliás, assolou-me a questão. Picar-me ou não me picar? Deveria eu, Judah Ben-Hur, continuar a acelerar até que o ponteiro do conta-quilómetros se encostasse ao lado direito, ou antes ficar a ouvir Islam Blues, enquanto a paisagem se desenrolava pachorrentamente, ao meu lado? Decisão rápida. Dei um torrão de açúcar aos meus cavalos para os compensar do esforço, aumentei o volume, porque o Islam Blues é para ouvir alto. Ao condutor da outra quadriga acenei os meus cumprimentos. E Sharki soou, mais vibrante que nunca, na estrada onde o outro veículo se confundia já com a linha do horizonte.