8.12.13

As melhores notícias estão num jornal fechado

A camisola do Chico, agora que bem reparo, é de riscas horizontais, em declinações de castanho, amarelo, verde e outras cores indefinidas. Nunca o conheci preocupado com o trajar, mas até parece um modelo de elegância quando entrega o café ao Jorge Ferrugem, de camisolão vermelho, com pouco discretos quadrados, e um boné branco de pala verde. Boné de pintor, que não tinha que o usar ao domingo, mas diz-se que não o larga nem nos momentos íntimos. O Jorge está ao canto do balcão e eu, com o corroído lápis Viarco, vou escrevinhando na sebenta, esticando o pescoço para que o meu olhar não se perca no casaco roxo da Dona Germana, sentada aqui à minha frente. Bonitos cabelos brancos os da Dona Germana, vejo-os brilhar quando me chama “menino”. Por trás do Jorge, na mesa junto à janela, a Lucinda, a mulher do Horácio da Conservatória. A Lucinda está só, a folhear o Correio da Manhã. Chegou cedo a Lucinda, senão não tinha posto a vista no jornal. A Lucinda tem o cabelo louro, pelos ombros, o olhar distante, e vista daqui, parece ter um contorno difuso, uma aura até, da luz que atravessa a janela. O tecto do café do Chico tem uma ventoinha de quatro pás, em tons de bronze. Hoje, com o frio, está parada. Detenho-me a olhar para a pá que reflecte o boné branco do Jorge Ferrugem. O meu olhar desce a tempo de ver que o Jorge, atento, percebe que Lucinda deu por finda a leitura do Correio da Manhã. Talvez tivesse avistado ao longe o Horácio, que vinha juntar-se ao café com ela. O Jorge, oportuno, aproxima-se da mesa dela para obter o precioso jornal. Tenho que rodar mais ainda a cabeça, porque a Dona Germana decidiu virar-se e sorrir-me. Sorrio de volta enquanto ao longe, o Correio da Manhã muda de mãos. Ao abrigo do jornal dobrado, os dedos do Jorge e da Lucinda demoram-se, num encontro impossível, alongado, sem tempo. As mãos tardam a afastar-se presas pelo fio que vejo nos olhos de Lucinda.  O Correio já está em cima do balcão quando o Horácio cruza a porta do café. O Chico limpa chávenas, a Dona Germana vem dar-me um beijinho de despedida, o Horácio vai pedir um café para se juntar à mulher. Os olhos do Jorge afundam-se no jornal. O olhar de Lucinda cruza-se com o meu. Leva o indicador aos lábios, como que para os trancar. Não se passa nada, é como se me dissesse. Não se passa nada.