21.12.13

O café dos destinos cruzados

Eu e o Armando reescrevemos o tratado de Tordesilhas: os jornais que ficam na mesa, a dar para o lado do balcão do Chico são meus, os iluminados pela luz da janela, são para usufruto dele. Para que ninguém fique com o Brasil quando queria era a Índia, trocamos depois. Foi assim que me vi a ler o horóscopo da omnisciente Maya e a pensar que gostava hoje de ser Escorpião: “Os acontecimentos do dia vão fazer com que se sinta bem. Conseguirá ter resultados superiores aos que estava à espera.” Sempre ficava mais descansado ao prever que a cabeça de garoupa do almoço, daqui a pouco, vai superar as minhas expectativas, já de si elevadas. Com uma cabeça de peixe, comporto-me como um credor internacional: apenas o melhor me satisfaz. Mas como no grupo, há pelo menos um digno representante desse signo, que é mais exigente que eu, e se a Maya o diz, grande pitéu (como diria a mulher do Chico) e melhor tarde nos aguardam. O Armando absorve-se a perceber o trajecto académico do Daniel Oliveira, no Expresso e eu aproveito para observar o João e a Francisca, na mesa perto do balcão. A Francisca folheia distraidamente uma Caras já arrasada pelas mãos indelicadas dos fregueses do café, enquanto o João se embrenha a fundo num Record. Os olhos negros de Francisca, como aquela barra no balcão do Chico, viajam pelo café, encontram os meus, detêm-se por instantes. A juventude foi um país que visitamos em conjunto, eu e a Francisca. Mas há muito que o bilhete perdeu a validade. A Francisca tinha casado com o Marçal, que está na minha mesa favorita, perto da porta. É uma mesa inspirada no Relatório Minoritário, consegue-se ver quem vai entrar em cena antes de entrar em cena. É lá que se senta o Marçal, que tem entre as suas as mãos da Quina. A Quina que já foi casada com o João. Houve uma altura em que o casal Quina e João passava férias com o casal Francisca e Marçal. Eu via-os de longe umas vezes, próximo outras, eternamente sorridentes. O Marçal sempre foi um comediante a contar anedotas, o castiço. Ria-se tanto, a Quina, das anedotas do Marçal. Será que ele ainda a faz gargalhar como nesses longos jantares de cabeça de garoupa e alvarinho? Para além das públicas, o Marçal e a Quina começaram a contar anedotas em privado e por isso o João decidiu aprender umas quantas para contar à Francisca. Agora aqui estão, em mesas tão separadas quanto possível. Tenho a certeza de que se o Marçal não estivesse junto à entrada, o João não ficava na mesa mais escura, encostado à porta da copa do Chico. Também é bom a contar anedotas, o Chico. Tenho a certeza de que antes de sair, ainda me vai contar uma, quando for pagar os cafés. Hoje não levo empadas, a conta é mais pequena, mas a anedota não é descontada. A Francisca coloca agora batom, enquanto o João tenta destrinçar afincadamente o sucessor de Jorge Nuno, nas entrelinhas do jornal. Coloca batom e olha para o Marçal, na outra mesa. Lentamente, os lábios ganham um tom vermelho com um brilho vivo, o brilho que vejo também no olhar do Marçal, que talvez lhe advenha por estar junto à porta. Um tipo com muita piada, o Marçal. O Armando acorda do Expresso para me dizer que está na hora da garoupa. À saída, aceno uma despedida à Francisca, ao Marçal e à Quina. O João escrutina agora O Jogo e nem me vê. Como brilham, os lábios da Francisca. Como brilham, os olhos do Marçal. Prognostica a Maya hoje, no horóscopo do Touro, o signo da Francisca e do Marçal, por coincidência: “Tende tudo a correr bem. O destino facilita os amores.” Se a Maya o diz, só pode ser verdade.