15.12.13

Os amores públicos e os privados de amores

O Aníbal estende-me o Vidas do Correio da Manhã, por cima da mesa do café. Está a falar do museu do Ronaldo, mas suspeito que a conversa vai parar à Irina, não tarda. Sei da paixão dele -- o Aníbal, não o Cristiano -- pela Shayk, mesmo que a conversa mude para o Rodrigo Guedes de Carvalho e o Steven Seagal, a Irina apareçará algures enquanto mexemos vagarosamente o café sem açúcar. Devia era o Rodrigo ter entrevistado o Steven, digo-lhe eu, em vez dos outros rapazes. Há que tempos que não se sabe nada da Kelly LeBrock, talvez o Steven tenha voltado a falar com ela depois daquelas zangas públicas. Era parecida com a Irina, a Kelly, uma rapariga desempoeirada, quando vestia de vermelho, e dizia: “Não me odeiem por ser bonita.” A Filomena, que está na mesa ao lado, não era tão bela como a Kelly, mas isso não impediu que nos tivesse sempre a todos, lá na escola, a deixar-lhe papelinhos rabiscados com tolices (todos os papelinhos escrevinhados são tolos) por onde calhava. No final ganhou o papelinho do Alberto. Foi um casamento lindo o do Alberto e da Filomena, ainda dura, há tantos anos, felizes, os dois, como passarinhos. Que será feito do meu papelinho? O Aníbal, como previsto está já a pintar a Irina na conversa, mas eu, ainda a pensar nos papelinhos da Filomena, vejo os gestos expressivos da Eva, sua companhia de mesa e café. Brincos de argolas grandes, cabelo preto iridescente, unhas cintilantes, gestos amplos, sorriso solar: por trás do balcão, o Chico pousa os cotovelos na mesa, coloca a cara entre as mãos e ali fica, de sorriso embevecido, dos que não engana ninguém. No mundo dele, imagina certamente o guião de um filme com a Eva, só os dois, perdidos nas veredas do paraíso, inventando pecados por descobrir.
Entre Filomena e Eva, a conversa amaina subitamente. Num ritual natalício, Filomena entrega um presente a Eva, um formato de livro, em papel estampado com violetas. Um sorriso expectante, enquanto Eva o desembrulha, os olhos mais abertos, um sussurro que não ouço. Eva passa longamente os dedos pelas páginas. Instintivamente, olho para o Chico, mas a mulher  arrancou-o da contemplação: hora de lavar as chávenas, meu menino. À minha frente, a atenção do Aníbal vira-se para o Diário de Notícias, que também fala da Irina, que dia maravilhoso, Shayk por todo o lado. No livro de Filomena, Eva encontra um papelinho. Sigo as linhas dos lábios de Filomena, o ligeiro aperto de comoção, o acentuar do brilho, quando Eva leva o papelinho perto das narinas, para sentir o odor antes de ler, como um enólogo antes da prova, os dedos acariciando o papel, o olhar alongando-se. O beijo de agradecimento, as faces roçam, deslizam, até os lábios quase se tocarem. Rápido o suficiente para ninguém ver, lento o suficiente para significar a eternidade. Filomena senta-se, de olhos cerrados, por instantes. Eva guarda o livro na mala, o papelinho no casaco, do lado do coração. A mulher do Chico traz-me a minha caixa de empadas, ainda quentes. Assim permanecerão até daqui a pouco, ao almoço. Digo adeus a Filomena e a Eva, desejo um bom domingo ao Chico e à mulher e saio com o Abílio, a contar-lhe, finalmente, sobre aquela vez em que vi a Irina assim, frente a frente, au naturel, sem maquilhagem. Abílio, meu caro, nem tudo é o que parece, nem tudo é o que parece.