31.12.13

Em passo dançante para 2014

Final del año

Ni el pormenor simbólico
de reemplazar un tres por un dos
ni esa metáfora baldía
que convoca un lapso que muere y otro que surge
ni el cumplimiento de un proceso astronómico
aturden y socavan
la altiplanicie de esta noche
y nos obligan a esperar
las doce irreparables campanadas.
La causa verdadera
es la sospecha general y borrosa
del enigma del Tiempo;
es el asombro ante el milagro
de que a despecho de infinitos azares,
de que a despecho de que somos
las gotas del río de Heráclito,
perdure algo en nosotros:
inmóvil. (*)

Jorge Luis Borges

Votos de um magnífico ano de 2014.


Lully, Passacaille, Armida


(*) Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa vã metáfora
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
atordoam ou minam
o planalto desta noite
e obrigam-nos a esperar
as doze irreparáveis badaladas,
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro em face do milagre
de que apesar de todos os acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure em nós alguma coisa:
imóvel.

29.12.13

A Wikipedia e o fim de ano no café

O Chico entrega-me a chávena por cima do balcão, com ar irónico: “Foram para a Madeira ontem, com o filho e a nora.” É uma delegação de porta aberta da Wikipedia, o café do Chico: pergunta-se pela Cremilde e o Jacinto (Dona Cremilde, que tem idade para ser minha mãe, e eu sou respeitador) e o Chico sabe dizer até o Hotel do Funchal onde vão acordar das folias e dos fogos de artifício. É asseada, a Lina, a mulher do Chico, mas aquele pano de louça na mão nunca me deu grande confiança quando limpa as chávenas com ele: “Ora toma e embrulha.” Que é como quem diz, o Senhor Jacinto, com um bloco de casas nas mãos do banco, ainda tinha umas poupançazitas para o fim de ano. Orientado, o Senhor Jacinto, sempre deu bem conta de si, mesmo falido. Já eu, vou encomendar umas empadas ao Chico, uns rissóis à Dona Justa, minha vizinha, daqui a pouco, quando por lá passar. Misturo umas passas com uns amigos e faço a festa. “Viste a Cristina Ferreira de lágrima no olho?” pergunta-me a Lina, por cima da Vidas do Correio da Manhã.  É a secção sentimental da Wikipedia, a Lina. “A nora da Cremilde estava na cabeleireira a arranjar o cabelo assim.” e o pano da louça pousa por instantes na cabeça da directora de Conteúdos não Informativos, na Vidas. É parecida com a Cristina Ferreira, a nora da Dona Cremilde. Via-a no ginásio, esta semana, deitada no tapete, o PT a alongar-lhe a perna esquerda, depois a direita, mãos carinhosas, músculos sorridentes. Será que o PT foi também para o Funchal, pergunto-me, mas surripio a dica à Lina. Fica para uma próxima empada. O Chico puxa a Lina para si: “Adoro esta mulher, vamos fugir os dois no dia um” e leva com o pano de louça, ela a rir, desvelada. No primeiro dia do ano, o café está fechado. Terei que dar uso à máquina, às cápsulas pretas, quando acordar já a pisar a hora de almoço. No primeiro dia do ano, o Chico terá tempo para a Lina. O Senhor Jacinto não terá que pensar no banco nem nas casas, nem no casamento do filho, nem no PT da nora: vão todos a Câmara de Lobos, às espetadas, diz-me o Chico, que sabe o itinerário completo. A conversa dá-me fome. Saudades de lapas com bolo do caco, penso eu. Vou mas é perguntar à Wikipedia onde é que se consegue comer umas lapas suculentas, aqui pelas redondezas.

21.12.13

O café dos destinos cruzados

Eu e o Armando reescrevemos o tratado de Tordesilhas: os jornais que ficam na mesa, a dar para o lado do balcão do Chico são meus, os iluminados pela luz da janela, são para usufruto dele. Para que ninguém fique com o Brasil quando queria era a Índia, trocamos depois. Foi assim que me vi a ler o horóscopo da omnisciente Maya e a pensar que gostava hoje de ser Escorpião: “Os acontecimentos do dia vão fazer com que se sinta bem. Conseguirá ter resultados superiores aos que estava à espera.” Sempre ficava mais descansado ao prever que a cabeça de garoupa do almoço, daqui a pouco, vai superar as minhas expectativas, já de si elevadas. Com uma cabeça de peixe, comporto-me como um credor internacional: apenas o melhor me satisfaz. Mas como no grupo, há pelo menos um digno representante desse signo, que é mais exigente que eu, e se a Maya o diz, grande pitéu (como diria a mulher do Chico) e melhor tarde nos aguardam. O Armando absorve-se a perceber o trajecto académico do Daniel Oliveira, no Expresso e eu aproveito para observar o João e a Francisca, na mesa perto do balcão. A Francisca folheia distraidamente uma Caras já arrasada pelas mãos indelicadas dos fregueses do café, enquanto o João se embrenha a fundo num Record. Os olhos negros de Francisca, como aquela barra no balcão do Chico, viajam pelo café, encontram os meus, detêm-se por instantes. A juventude foi um país que visitamos em conjunto, eu e a Francisca. Mas há muito que o bilhete perdeu a validade. A Francisca tinha casado com o Marçal, que está na minha mesa favorita, perto da porta. É uma mesa inspirada no Relatório Minoritário, consegue-se ver quem vai entrar em cena antes de entrar em cena. É lá que se senta o Marçal, que tem entre as suas as mãos da Quina. A Quina que já foi casada com o João. Houve uma altura em que o casal Quina e João passava férias com o casal Francisca e Marçal. Eu via-os de longe umas vezes, próximo outras, eternamente sorridentes. O Marçal sempre foi um comediante a contar anedotas, o castiço. Ria-se tanto, a Quina, das anedotas do Marçal. Será que ele ainda a faz gargalhar como nesses longos jantares de cabeça de garoupa e alvarinho? Para além das públicas, o Marçal e a Quina começaram a contar anedotas em privado e por isso o João decidiu aprender umas quantas para contar à Francisca. Agora aqui estão, em mesas tão separadas quanto possível. Tenho a certeza de que se o Marçal não estivesse junto à entrada, o João não ficava na mesa mais escura, encostado à porta da copa do Chico. Também é bom a contar anedotas, o Chico. Tenho a certeza de que antes de sair, ainda me vai contar uma, quando for pagar os cafés. Hoje não levo empadas, a conta é mais pequena, mas a anedota não é descontada. A Francisca coloca agora batom, enquanto o João tenta destrinçar afincadamente o sucessor de Jorge Nuno, nas entrelinhas do jornal. Coloca batom e olha para o Marçal, na outra mesa. Lentamente, os lábios ganham um tom vermelho com um brilho vivo, o brilho que vejo também no olhar do Marçal, que talvez lhe advenha por estar junto à porta. Um tipo com muita piada, o Marçal. O Armando acorda do Expresso para me dizer que está na hora da garoupa. À saída, aceno uma despedida à Francisca, ao Marçal e à Quina. O João escrutina agora O Jogo e nem me vê. Como brilham, os lábios da Francisca. Como brilham, os olhos do Marçal. Prognostica a Maya hoje, no horóscopo do Touro, o signo da Francisca e do Marçal, por coincidência: “Tende tudo a correr bem. O destino facilita os amores.” Se a Maya o diz, só pode ser verdade. 

15.12.13

Os amores públicos e os privados de amores

O Aníbal estende-me o Vidas do Correio da Manhã, por cima da mesa do café. Está a falar do museu do Ronaldo, mas suspeito que a conversa vai parar à Irina, não tarda. Sei da paixão dele -- o Aníbal, não o Cristiano -- pela Shayk, mesmo que a conversa mude para o Rodrigo Guedes de Carvalho e o Steven Seagal, a Irina apareçará algures enquanto mexemos vagarosamente o café sem açúcar. Devia era o Rodrigo ter entrevistado o Steven, digo-lhe eu, em vez dos outros rapazes. Há que tempos que não se sabe nada da Kelly LeBrock, talvez o Steven tenha voltado a falar com ela depois daquelas zangas públicas. Era parecida com a Irina, a Kelly, uma rapariga desempoeirada, quando vestia de vermelho, e dizia: “Não me odeiem por ser bonita.” A Filomena, que está na mesa ao lado, não era tão bela como a Kelly, mas isso não impediu que nos tivesse sempre a todos, lá na escola, a deixar-lhe papelinhos rabiscados com tolices (todos os papelinhos escrevinhados são tolos) por onde calhava. No final ganhou o papelinho do Alberto. Foi um casamento lindo o do Alberto e da Filomena, ainda dura, há tantos anos, felizes, os dois, como passarinhos. Que será feito do meu papelinho? O Aníbal, como previsto está já a pintar a Irina na conversa, mas eu, ainda a pensar nos papelinhos da Filomena, vejo os gestos expressivos da Eva, sua companhia de mesa e café. Brincos de argolas grandes, cabelo preto iridescente, unhas cintilantes, gestos amplos, sorriso solar: por trás do balcão, o Chico pousa os cotovelos na mesa, coloca a cara entre as mãos e ali fica, de sorriso embevecido, dos que não engana ninguém. No mundo dele, imagina certamente o guião de um filme com a Eva, só os dois, perdidos nas veredas do paraíso, inventando pecados por descobrir.
Entre Filomena e Eva, a conversa amaina subitamente. Num ritual natalício, Filomena entrega um presente a Eva, um formato de livro, em papel estampado com violetas. Um sorriso expectante, enquanto Eva o desembrulha, os olhos mais abertos, um sussurro que não ouço. Eva passa longamente os dedos pelas páginas. Instintivamente, olho para o Chico, mas a mulher  arrancou-o da contemplação: hora de lavar as chávenas, meu menino. À minha frente, a atenção do Aníbal vira-se para o Diário de Notícias, que também fala da Irina, que dia maravilhoso, Shayk por todo o lado. No livro de Filomena, Eva encontra um papelinho. Sigo as linhas dos lábios de Filomena, o ligeiro aperto de comoção, o acentuar do brilho, quando Eva leva o papelinho perto das narinas, para sentir o odor antes de ler, como um enólogo antes da prova, os dedos acariciando o papel, o olhar alongando-se. O beijo de agradecimento, as faces roçam, deslizam, até os lábios quase se tocarem. Rápido o suficiente para ninguém ver, lento o suficiente para significar a eternidade. Filomena senta-se, de olhos cerrados, por instantes. Eva guarda o livro na mala, o papelinho no casaco, do lado do coração. A mulher do Chico traz-me a minha caixa de empadas, ainda quentes. Assim permanecerão até daqui a pouco, ao almoço. Digo adeus a Filomena e a Eva, desejo um bom domingo ao Chico e à mulher e saio com o Abílio, a contar-lhe, finalmente, sobre aquela vez em que vi a Irina assim, frente a frente, au naturel, sem maquilhagem. Abílio, meu caro, nem tudo é o que parece, nem tudo é o que parece.

8.12.13

As melhores notícias estão num jornal fechado

A camisola do Chico, agora que bem reparo, é de riscas horizontais, em declinações de castanho, amarelo, verde e outras cores indefinidas. Nunca o conheci preocupado com o trajar, mas até parece um modelo de elegância quando entrega o café ao Jorge Ferrugem, de camisolão vermelho, com pouco discretos quadrados, e um boné branco de pala verde. Boné de pintor, que não tinha que o usar ao domingo, mas diz-se que não o larga nem nos momentos íntimos. O Jorge está ao canto do balcão e eu, com o corroído lápis Viarco, vou escrevinhando na sebenta, esticando o pescoço para que o meu olhar não se perca no casaco roxo da Dona Germana, sentada aqui à minha frente. Bonitos cabelos brancos os da Dona Germana, vejo-os brilhar quando me chama “menino”. Por trás do Jorge, na mesa junto à janela, a Lucinda, a mulher do Horácio da Conservatória. A Lucinda está só, a folhear o Correio da Manhã. Chegou cedo a Lucinda, senão não tinha posto a vista no jornal. A Lucinda tem o cabelo louro, pelos ombros, o olhar distante, e vista daqui, parece ter um contorno difuso, uma aura até, da luz que atravessa a janela. O tecto do café do Chico tem uma ventoinha de quatro pás, em tons de bronze. Hoje, com o frio, está parada. Detenho-me a olhar para a pá que reflecte o boné branco do Jorge Ferrugem. O meu olhar desce a tempo de ver que o Jorge, atento, percebe que Lucinda deu por finda a leitura do Correio da Manhã. Talvez tivesse avistado ao longe o Horácio, que vinha juntar-se ao café com ela. O Jorge, oportuno, aproxima-se da mesa dela para obter o precioso jornal. Tenho que rodar mais ainda a cabeça, porque a Dona Germana decidiu virar-se e sorrir-me. Sorrio de volta enquanto ao longe, o Correio da Manhã muda de mãos. Ao abrigo do jornal dobrado, os dedos do Jorge e da Lucinda demoram-se, num encontro impossível, alongado, sem tempo. As mãos tardam a afastar-se presas pelo fio que vejo nos olhos de Lucinda.  O Correio já está em cima do balcão quando o Horácio cruza a porta do café. O Chico limpa chávenas, a Dona Germana vem dar-me um beijinho de despedida, o Horácio vai pedir um café para se juntar à mulher. Os olhos do Jorge afundam-se no jornal. O olhar de Lucinda cruza-se com o meu. Leva o indicador aos lábios, como que para os trancar. Não se passa nada, é como se me dissesse. Não se passa nada.

5.12.13

Que sorte tem Kabir, cercado por toda esta alegria, cantando no seu barquinho

Conta-me, Oh Cisne, a tua antiga história.
De que terra vens,
Oh Cisne? para que margem voas?
Onde pousarás para descansar,
Oh Cisne, e que procuras?

Ainda esta manhã, Oh Cisne, desperta, levanta-te, segue-me!
Há uma terra livre da dúvida e da tristeza,
Onde o terror da morte já não impera.
Lá, florescem os bosques em primavera,
e a fragrância 'Ele sou Eu' nasce no vento:
nela, imerge profundamente a abelha do coração,
e não deseja outra alegria.

Kabir 
(Adaptação X.)



Ravi Shankar & Anoushka Shankar, Raag Khamaj