24.11.14

Uma viagem de outono-inverno

Em Outubro de 1705, quando Bach iniciou a viagem para Lubeck, nevava. Nada que demovesse o jovem compositor, então com vinte anos, de se meter a um caminho de quatrocentos quilómetros, a pé, para ouvir Dieterich Buxtehude, o maior organista da época, de que apenas conhecia a fama e algumas partituras, laboriosamente copiadas à mão. Pediu licença sem vencimento por um mês, e esqueceu-se, ou não sabia, que os mais completos concertos do mestre, com música nova, seriam em Dezembro, nas semanas que precediam o Natal. O dilema é imaginável: se regressasse, poderia nunca mais ter segunda oportunidade de ouvir Buxtehude, então com sessenta e oito anos. Se ficasse, provavelmente perderia o seu próprio emprego de organista em Anstadt. Optou por ficar: foi tal o fascínio, que voltaria apenas em Fevereiro, três meses depois de expirada a licença. Conservou o emprego, mas não se livrou de uma reprimenda por escrito. A música, essa, nunca mais foi a mesma. Os oitocentos quilómetros de viagem a pé de Bach levaram-nos a modificar o estilo, a ponto de receber uma admoestação dos patrões, entre outras queixas, pelas estranhas variações introduzidas no coro. Disse Cioran: Se há alguém que deve tudo a Bach, é Deus. Nunca saberemos que parte da dívida se deve a essa viagem. Mas é certamente uma porção divina.

13.8.14

Um grande passo para Maryam, um enorme para a humanidade

Foto: Stanford University

Talvez daqui a umas décadas se visite a casa de Maryam Mirzakhani com a mesma reverência silenciosa com que passei pelo museu Marie Curie em Varsóvia. Para já, a iraniana, professora em Stanford, está remetida ao silêncio, junto da filha de três anos e do marido, enquanto se propaga por todo o mundo a notícia dela ter sido a primeira mulher a ganhar a medalha Fields, a que muitos chamam o Nobel da matemática. Algumas das mais brilhantes mentes matemáticas que conheci são mulheres, nunca percebi, possivelmente ninguém percebia, a relutância do júri Fields, a demora, a dar o grande passo a que o comité Nobel se atreveu logo em 1903, ao atribuir o Nobel da Física a Marie Curie (e em 1911, o segundo Nobel, o da Química). Não sei se Maryam dirá, como a minha amiga, sua conterrânea e homónima (igualmente Maryam), que é persa, por não se identificar com o actual Irão, mas como facto é pouco relevante. Ao validar o trabalho de Maryam, o comité Fields criou o que é mais importante em qualquer área: um (desculpem-me o anglicismo) role-model, alguém a quem se possa indicar a uma qualquer jovem e brilhante estudante de matemática: tu podes ser a próxima Fields. A partir de agora, isso é possível, e sim, é certamente um dia extraordinário para Maryam, mas mais ainda para toda a humanidade.