30.12.14

Antes da grande noite na Grande Maçã

Recebo de José Eustáquio de Andrada, professor de literatura portuguesa, em Oxford, actualmente retirado nos braços da capitosa Orchidée, uma mensagem em cursivo ornamentado, a tinta azul safira, onde reconheço o perfume da sua musa.

Meu estimado amigo,

Quando esta lhe chegar às mãos, encontrar-me-ei com a minha doce Orchidée, chez Pierre (1). Frio por frio, prefiro o frio que é quente, como este da Grande Maçã. Já o meu prezado, prefere o frio que é frio, como o de Lisboa. 

Eu diria que desde que se decidiu a anunciar Urbi et Orbi a sua conversão a esse tenebroso acordo ortográfico de 1990, merece que surjam estalactites de gelo nos tectos dessas bibliotecas onde arruína os seus melhores dias. 

Como é que um homem da sua estatura (Orchidée aqui ao meu lado mostra de forma veemente a sua concordância com estas minhas admoestações que soam ríspidas mas são tingidas pela verdade mais pura) se verga assim à sombra de Houaiss (2) é, para mim, um mistério maior que o da estrada de Sintra. 

Palavras minhas que venha a incluir aí nesse seu hebdomadário, muito grato lhe ficaria se mantivesse a ortografia original. Quando citar Agustina ou Herberto, como o meu amigo tanto gosta de fazer, irá atrever-se, qual amanuense munido de borracha de tinta, a alterar os vocábulos que caíram sob o machete ímpio de Houaiss e Malaca (3)? Decerto que não, decerto que não.

E depois de tal desmande, ainda há quem leia o que por aí publica, exceptuando, incompreensivelmente Orchidée, que parece não perder uma linha do seu pasquim? Desde a sua rendição à filosofia redutora houaissiana, meu caro, causa-me mais interrogações que afirmações.

Orchidée pede-me encarecidamente, e quem sou eu, oh, quem sou eu, para negar tal pedido a esta lira que enche de melodias cada uma das minhas horas tardias, que envie aos seus leitores os votos de um rutilante Ano Novo, tão faiscante como o diamante que ela ora ostenta no dedo, recordação do pequeno almoço de hoje na Tiffany. Ainda afirma Orchidée, contudo, que eu sou melhor amigo dela que o dito diamante (4).

E já que a porta foi assim aberta, transmita idênticos votos, da minha parte, a todos os leitores a quem martiriza com a sua depressiva prosa e o seu desusado e caduco romantismo.

De ambos receba, para si, um abraço entregue com força telúrica. E não leve muito a sério o que acima digo: os tempos prestam-se a estes chistes, que é tudo o que de sadio nos vai restando ainda.

Deste que muito o estima e considera
J. E. de Andrada


(1) O ilustre Andrada refere-se a The Pierre Hotel, em Nova Iorque, como é evidente.
(2) Para J. E. de Andrada, é a António Houaiss que deve ser assacada a responsabilidade pelo acordo de 1990. Eu manterei a minha equidistância face a tal polémica.
(3) Refere-se Andrada a Malaca Casteleiro, outro dos pais fundadores do acordo ortográfico.
(4) É lendária a subtileza das piadas de José Eustáquio.

24.12.14

E afinal de contas, onde paras, x?


No café do Chico, pois claro!

Votos de um luminoso e feliz Natal para todos. 

21.12.14

Habanera

Recebo de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa no Magdalen College, em Oxford, uma mensagem escrita, em letra cuidada, a tinta sépia, fotografada por Orchidée, essa luz que lhe ilumina o ocaso adiado, e enviada por Snapchat. Cito-a de memória, portanto.

Meu estimado amigo,

Tive que me deslocar inesperadamente aqui a Havana: nunca poderia recusar um pedido do Raul, que me escreveu com lacrimejante e desesperada caneta. Estava o infausto inteiramente desmagnetizado com esta coisa com os americanos: nem sabia por onde começar as conversações. Tenho passado os dias cerrado em reuniões sem fim, sem tempo sequer para cheirar os olores da minha flor. Tirarei a devida desforra quando regressar a Olimpo, digo Olísipo.

Diz-me Orchidée que o meu caríssimo escreveu lá nesse seu pasquim nas internetes que "entrou em reflexão". Em reflexão, diz? Homem, deixe-se disso! Em reflexão entram certas figuras vetustas quando querem gerar mistério em torno do facto de irem, como toda a gente já sabe que vão, ser candidatos presidenciais. Ora o meu amigo, ainda a meio caminho da vetustez, tem lá algo em que reflectir?

Acrescenta ela que refere o estimado que ou lê ou reflecte? Já se vê habitante de alguma sala oval como o W, que ou andava ou mascava pastilha elástica? O cérebro humano tem duas metades – em teoria, uma é para as coisas reflectidas e a outra, para as irreflectidas. Faça uso dos miolos todos, que é para isso que Deus infinitamente misericordioso lá os colocou!

Se ainda não tem onde ir passar o Natal, e quase seria capaz de apostar que com essa sua cabeça de romântico em permanente demanda da infelicidade, nem sequer se lembrou em que época estamos, apareça lá por casa no dia vinte e quatro. A Orchidée está aqui a agitar em delírio as pulseiras, querendo dizer que há por lá lugar para si, ela reserva a sua cadeira preferida à mesa.

L'amour est un oiseau rebelle (1), bem sabemos. Mas ao menos nesta altura, desterre o pássaro para a gaiola, deixe-se de reflexões, saia dessas bibliotecas em que habita, apanhe o sol todo que conseguir, faça vida de gente, meu amigo. Acima de tudo, não se esqueça da noite de Consoada, ou a Orchidée tornará a sua existência durante algumas hora, e desde já lhe asseguro, para meu precioso gáudio, num inesquecível purgatório.

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada

(1) Refere-se o generoso Andrada à célebre ária, também conhecida como Habanera, da Carmen, de Bizet.

7.12.14

O café dos píncaros

Sabe, quem me conhece, quanto gosto de tomar de manhã o café à sombra da copa de certa árvore, jornal aberto, em precário equilíbrio entre o joelho e a mesa de metal cintilante, a conjecturar sobre as ofertas de compras e as compras por ofertas, a tentar decifrar o mundo pela lente de uma chávena de ébano a escaldar. A árvore de natal do café do Chico é grande, mas não frondosa o suficiente para me abrigar debaixo dela, como a outra, a dos dias de semana, mas basta-me a proximidade, as agulhas artificiais que se vão espetando no pulôver como que a quererem tricotar, elas, a lã de merino.

Todos os anos, o Chico fornece a árvore, a freguesia a decoração. Hoje foi a minha vez, subtraí-me a mim próprio, do pinheiro tailandês que medrou junto à minha janela, uma bola do tamanho de uma laranja, mas da cor do dito pulôver, do tom do vinho maduro que irá acompanhar a perdiz do almoço, encomendada à Dona Alzira da Conceição, com os créditos de muitos anos a estufar as perdizes do senhor Marido António, o segundo depois do falecimento do Marido Xavier, também amante dos cartuchos, num infeliz desastre de caça.  Mas nos olhos de Dona Alzira ainda vive o Marido Xavier, mesmo finado, são felizes os três, ela e os dois maridos e não há perdizes, por Deus, como as da senhora Alzirinha. A minha bola, dizia eu, antes de começar a falar de perdizes, foi colocada ali, onde me sento, sob o olhar de apreço do Chico, que dançava o tango dele com o café que trazia numa mão, dois pastéis de nata na outra, tango dobrado, portanto.

A Joaninha Luz, que é freguesa como eu de domingo e, mais que eu, de outros dias, tem também uma bola para pendurar no pinheiro do café, ei-la na mão, sorriso a prenunciar o espírito da época, é azul, cor de capa de livro de Agustina, a edição mais recente d’A Sibila, é o melhor que sei descrever, não sou bom a falar de cores, azul de fim de tarde, daqueles em que adivinhamos que a lua cheia não demora.

Vem Joaninha Luz, valsando, com o seu pedaço de céu na mão, e deposita-o no pinheiro, um pouco abaixo da estrela, que bem que fica o contraste, azul e ouro. Um raio urgente de sol encontra o globo, cometa e embater no oceano onde flutuará, e no espelho momentâneo que assim se produz, vejo reflectidos os olhos do Adalberto Engrácio, que rodeiam, mais direi, abraçam o fragmento celeste que antes estava nas mãos de Joaninha Luz. É cliente também o Adalberto, e o Chico, que para além de bailador é esperto que nem uma truta, daquelas que nem os mais peritos apontadores de anzóis conseguem apanhar, faz-me de longe sinal, afilando o queixo na direcção do Adalberto. E levanta-se este, suavemente, diria, empurrado pelo gesto distante do Chico, destapa uma bola que trazia numa caixa, linda, uma bola de cor de lua, e fá-la ascender até ao céu que Joaninha acabou de depositar nas agulhas verdes. 

Como se fosse um parteiro a entregar pela primeira vez uma recém-nascido à mãe, assim Adalberto deixa a sua marca de cliente, o seu sinal, o seu coração, percebo-o no olhar dele e de Joaninha, que bebe os seus movimentos desde que ele se levantou. Ali ficam lado a lado, o céu e a lua, azul e prata, Joaninha e Adalberto.

Eu, tenho ainda que passar por casa de Dona Alzira da Conceição e do Marido António para apanhar as perdizes, que vêm quentes, num tacho embrulhado em jornais, atado com um cordel.

— Destape só quando for comer, para estarem nos píncaros, como dizia o Marido Xavier.

aconselhar-me-á Dona Alzira. Nos píncaros, pois claro, as perdizes, estarão nos píncaros, que é onde lhes compete. E enquanto saio acenando ao Chico, lanço ainda um olhar para Joaninha Luz e Adalberto Engrácio, iluminando-se com olhares, cada um em sua mesa. Nos píncaros, ambos, nos píncaros.

16.11.14

Esse mal da melancolia

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, faz-me chegar uma mensagem escrita a tinta safira, saída do aparo invicto da sua S. T. Dupont Olympio.

"Meu prezado correspondente e amigo,

Diz-me Orchidée, este Sol que ilumina os meus dias e transforma as minhas madrugadas em auroras boreais, que o meu muito estimado amigo tem, nesse hebdomadário que parece insistir em publicar na Internet,  por um lado, mantido uma presença pouco assídua, por outro que o que escassamente escreve, lhe parece de uma inconcebível melancolia e finalmente, que voltou a fechar a secção de cartas ao director.

Sobre esta última parte, estamos conversados, não ouvirá uma palavra, saberá o meu estimado que nunca, em leito meu, as mesmas águas correm duas vezes. Sobre a assiduidade, recordo que, aquando da penúltima vez que estivemos no Pabe, o meu amigo se atrasou para lá de dois minutos. Depois disso, não me assombra, deveras, a sua inconstância no pasquim, digo, na sua folha internáutica, se me perdoa o neologismo. Saberá o caríssimo que as minhas leituras de Guimarães (1) me levam por vezes a estas ousadias linguísticas.

Agora, a melancolia, meu caro, a melancolia é um caso que merece análise. Burton (2), como não ignorará decerto, categorizou a melancolia em três tipos: a do cérebro, a do corpo inteiro e a hipocondríaca. Acho que o meu amigo padece de todas, mas há uma em especial, aquela a que o erudito Avicena chamou ilishi que diria ser a dominante. Burton inclui ilishi, a melancolia do amor, na categoria das do cérebro. Os sintomas são, diz o sábio persa,  “os olhos vagos, secura, sorrir para si próprio como se tivesse visto ou ouvido algum objecto deleitável.” Tudo isto são sinais que consigo identificar no meu amigo, em particular esse semblante vago, que, cito ainda, “olha para dentro”. Diz-me Orchidée que o encontrou engelhado, o que mais confirma ilishi: os que sofrem do mal de amor “definham, parecem doentes, tomam-se de cuidados, suspiram.” Pois definha, meu amigo, definha.

Passe cá por casa no próximo sábado para alimentarmos o definhamento. Deixe de ler essas coisas românticas que lhe atafulham as estantes, essas obras decadentes que mais ninguém tem e ainda menos lê. Como Moulton (3) diz, foi a literatura que criou o amor como o conhecemos. Acabe-se com a literatura e os males de amor desidratam-se, logo se finam os cuidados e os suspiros. E aquele Hennessy que bem conhece, há-de servir-lhe de bálsamo. Se não servir, também não sei que mais o fará.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Trata-se de Guimarães Rosa, de quem J. E. de Andrada é manifesto admirador.
(2) O douto Andrada refere-se a Robert Burton que publicou em 1621 o seu magnífico tratado, The Anatomy of Melancholy.
(3) J. E. de Andrada fala de Ian Frederick Moulton, autor de Love in Print in the Sixteenth Century.

8.11.14

O universo inconcebível


En la parte inferior del escalón, hacia la derecha, vi una pequeña esfera tornasolada, de casi intolerable fulgor. Al principio la creí giratoria; luego comprendí que ese movimiento era una ilusión producida por los vertiginosos espectáculos que encerraba. El diámetro del Aleph sería de dos o tres centímetros, pero el espacio cósmico estaba ahí, sin disminución de tamaño. Cada cosa (la luna del espejo, digamos) era infinitas cosas, porque yo claramente la veía desde todos los puntos del universo. Vi el populoso mar, vi el alba y la tarde, vi las muchedumbres de América, vi una plateada telaraña en el centro de una negra pirámide, vi un laberinto roto (era Londres), vi interminables ojos inmediatos escrutándose en mí como en un espejo, vi todos los espejos del planeta y ninguno me reflejó, vi en un traspatio de la calle Soler las mismas baldosas que hace treinta años vi en el zaguán de una casa en Fray Bentos, vi racimos, nieve, tabaco, vetas de metal, vapor de agua, vi convexos desiertos ecuatoriales y cada uno de sus granos de arena, vi en Inverness a una mujer que no olvidaré, vi la violenta cabellera, el altivo cuerpo, vi un cáncer en el pecho, vi un círculo de tierra seca en una vereda, donde antes hubo un árbol, vi una quinta de Adrogué, un ejemplar de la primera versión inglesa de Plinio, la de Philemon Holland, vi a un tiempo cada letra de cada página (de chico, yo solía maravillarme de que las letras de un volumen cerrado no se mezclaran y perdieran en el decurso de la noche), vi la noche y el día contemporáneo, vi un poniente en Querétaro que parecía reflejar el color de una rosa en Bengala, vi mi dormitorio sin nadie, vi en un gabinete de Alkmaar un globo terráqueo entre dos espejos que lo multiplican sin fin, vi caballos de crin arremolinada, en una playa del Mar Caspio en el alba, vi la delicada osatura de una mano, vi a los sobrevivientes de una batalla, enviando tarjetas postales, vi en un escaparate de Mirzapur una baraja española, vi las sombras oblicuas de unos helechos en el suelo de un invernáculo, vi tigres, émbolos, bisontes, marejadas y ejércitos, vi todas las hormigas que hay en la tierra, vi un astrolabio persa, vi en un cajón del escritorio (y la letra me hizo temblar) cartas obscenas, increíbles, precisas, que Beatriz había dirigido a Carlos Argentino, vi un adorado monumento en la Chacarita, vi la reliquia atroz de lo que deliciosamente había sido Beatriz Viterbo, vi la circulación de mi oscura sangre, vi el engranaje del amor y la modificación de la muerte, vi el Aleph, desde todos los puntos, vi en el Aleph la tierra, y en la tierra otra vez el Aleph y en el Aleph la tierra, vi mi cara y mis vísceras, vi tu cara, y sentí vértigo y lloré, porque mis ojos habían visto ese objeto secreto y conjetural, cuyo nombre usurpan los hombres, pero que ningún hombre ha mirado: el inconcebible universo.

Jorge Luis Borges, El Aleph

[Imagem: Interstellar, de Chris Nolan. Algures, talvez junto a Lac Léman, em Genebra, acredito que a alma de um velho poeta argentino, sorri.]

1.11.14

De que mais precisa um homem

De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular? E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o desatino o carrega em sua onda sem rumo?
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher — as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...

Vinicius de Moraes, in Para uma Menina com uma Flor

Robert Schumann, Concerto para piano, Op. 54, Primeiro andamento

30.10.14

Relatório e contas

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

[Poderia duplicar as palavras de Vinicius, com uma excepção: hoje não fui triste.]

12.10.14

O café do pão de Deus

É por causa da missa que não há lugar para estacionar. 

Ao lado do passeio já não consigo, o parque, pequeno, cheio, com tanto terreno livre e os paisagistas da câmara tiveram que liliputizar, apenas encontro no largo, invento um rectângulo no chão, fico a rezar para que nenhum autocarro precise passar pelo espaço estreito. Os fiéis anteciparam-se, devia ter vindo antes deles, ou então percorrido o caminho a pé, afinal não chega a um quilómetro, mas a chuva, a chuva lava as virtudes, intensifica as fraquezas, e uma das minhas é a preguiça domingueira. 

Diria Kierkegaard sobre os estágios da vida do homem, que há os que se levantam de manhã para servir a Deus, e muitos dos que vão à missa vivem essa vida religiosa; há os que se levantam para bem dos outros, como o Chico, que me ocorre dizer, vive uma vida de serviço, ética; e há os de vida básica, como eu, que apreciam um café não muito cheio, se faz favor, e um pastel de nata que pode vir sem canela nem açúcar em pó, que ao domingo se preocupam apenas com o nível zero da sobrevivência, algum prazer, vá, desligam o cérebro, ligam o sistema autónomo de navegação, coisa futurista saída da cabeça de algum Elon Musk que em vez de carros, produzisse humanos.

É quase hora de almoço, o êxodo começou, mas encontro o Correio da Manhã numa mesa, a revista de domingo noutra, e o Paulo e o Alberto, ao balcão, cada com sua mini. Olho para os pães de Deus do Chico, ao lado das minis e valha-nos Deus, precisamente, que aspecto divino, só que não posso comê-los antes de almoço, tiram-me o apetite para o cozido, e antes de atacá-lo há que estar com o estômago dominical em estado de pureza absoluta. 

O Paulo e o Alberto, com a quarta mini cada um terminada, a caminho da quinta, não têm cozido à espera, ou se calhar têm, mas estão na idade em que minis e cozidos não são mutuamente exclusivos. E eis que entre minis se sente o perfume no ar, ainda longe se percebe, o perfume viaja mais depressa que a luz. A Vitória, namorada de Paulo, desliza, felina, até ele, enlaça-o, beijo de tentação. Alberto bebe um gole. Por puro fascínio continuo a olhar, Vitória depõe um beijo na face de Alberto, ele já sem mini, a boca dela tão perto, tão perto da dele, quase tangente, quase secante. Paulo sacia a seca com outro gole.

O Chico, dança atrás do balcão, discípulo da ética de Kierkegaard, para elevação dos outros, eu, hedonista, já bebi o café, penso no cozido, vou levar uns pastéis de nata para depois. Necessidades primárias, vida básica. Vitória leva uma caixa de pães de Deus, numa mão, Paulo na outra. Alberto segue-os de perto. O Chico chama-me, com eles já longe, e diz-me, casualmente: partilham o pão de Deus.

Não me detenho a pensar no que Søren diria, qual o estágio a que corresponde tal partilha. Suspeito, mas é apenas uma hipótese, que mesmo sendo pão de Deus, não será o religioso. A mulher do Chico vem entregar-me os pastéis, ela sabe que são para depois do cozido, dá-me dois beijos, diz-me: vai em paz e que o Senhor te acompanhe. Eu imito a dança do Chico e vou, sim, vou em paz. 

5.10.14

De Alcochete a Peramanca, uma viagem pela teologia etílica

I.

Borrachas, borrachões assinalados,
Que de Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca d'antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permite a gente branca,
Em Évora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II.

Também as bebedices mui famosas
D'aqueles que andaram esgotando
O império de Baco, e as saborosas
Águas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valorosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.

(...)


Deste modo glosavam quatro estudantes de Évora, por volta de 1589 o primeiro canto de Os Lusíadas e o editor da obra, Francisco Soares Toscano, descreve assim a sua génese, numa história que verte luz às catadupas sobre a vida e os tempos dos teólogos aprendizes por esses tempos.

Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no ano de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel do Vale, deputado da Santa Inquisição, que compôs o livro dos Salmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartolomeu Varela, natural de Viana, junto a Évora, o qual faleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este ano às Cortes, que El-rei D. Filipe II fez em Lisboa, por Procurador desta cidade de Évora. Foi Bartolomeu Varela clérigo e grandíssimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes de Vasconcelos, criado do Arcebispo D. Teotónio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o ultimo da oitava 17; porque estando eles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:
Desterrando a água-pé d'esta cidade.

O quarto e principal autor foi o Licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este ano de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor desta obra, e a fez quase toda, ou o melhor dela.

Quando a fizeram eram então todos teólogos; e às tardes, acabado o estudo, saiam pela porta de Machede, e assentados num ferragial, iam traduzindo para a bebedice as tais oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Évora, como Camões a de Portugal para a India Oriental; e compuseram a tal obra dentro em dois meses, no cabo dos quais saíram com ela: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma aplicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fora dos muros, e comunicarem seus papéis, sem darem conta disso a ninguém.

Finalmente, saída a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutíssimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel do Vale traz uma carta no seu livro) e falando-se nela, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca saíra nem ele vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vai, a trasladei do próprio original e letra de Bartolomeu Varela, que está em poder do Chantre da Sé desta cidade, Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varela, e lhe fiz algumas cotas para inteligência da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.

1.10.14

Dia mundial da elegância, também dito da música


Jean-Baptiste Lully, Passacaille d' Armide

28.9.14

O café das luzes reflectidas

Chego ao café do Chico a tempo de estrear o Correio da Manhã, ainda as mesas vão vazias, os pastéis de nata cheiram a viagens, a massa a estalar para acomodar o creme encantado pelos anjos, as pinceladas de negro a mergulhar no dourado luminoso.  O Chico dança aquele tango dele, o tango dos abraços, as mãos batem-me fortes nas costas feitas timbale, a mulher junta-se, enquanto não há freguesia para atender, rodeiam-me, beijos e abraços, e abraços de novo, é bom voltar a casa.

Saudades tinha eu do café, viagens e ausências, outros cafés noutras terras, nada que se compare ao do Chico, Campo Maior torra especialmente para ele, vêm os lotes em furgonetas expresso, não encontrei pastéis  iguais em lado nenhum, nem numa pastelaria do Estoril onde me diziam que eram magníficos, são nada. A mulher do Chico tem a receita e tem a mão, deve ser daquele pequeno diamante que o Chico lhe deu quando a arrancou dos braços do Jesuíno, já estava tudo apalavrado e eis que chega o Chico, homem dos tangos, Gardel dos cafés, e a arrebata numa dança eterna, todos os dias, até hoje dançam, atrás do balcão, em passos evolados. 

Agora, já não sou cliente único, Lucinda chegou, e é esmeralda, digo eu à mulher do Chico. Ela diz-me que eu sou é daltónico, não é nada esmeralda, é turmalina. E enquanto pondero se serei tão ignaro em matérias de alfaiataria geológica que não consiga dizer a cor exacta de uma camisa, tingida a pedras preciosas, noto os reflexos da luz matinal nos brincos longos de Lucinda, que atrai a luz, deve vir daí o nome. Nem a Irina na capa do Correio me faz desviar os olhos da cintilação na face de Lucinda, que nome perfeito, ela acena de longe, e a atenção volta ao livro, que chegam mais fregueses, e ela gosta de poupar os olhares, de se poupar a eles. 

Sentou-se o Joaquim na minha mesa, Joaquim, o obcecado, o apaixonado, Joaquim a quem só falta usar o monóculo de Ega, já que também me trata por menino, mesmo sendo mais novo. Por cima do ombro do vituperante Joaquim sigo o olhar de Lucinda, o brilho do reflexo da luz, e seguindo o raio de luz, vejo que sai pela porta e chega o Alberto que vem lá ao longe ainda, a Lucinda e o Alberto juntos pela mesma luz, há lá forma melhor de união, partilhar a luz. Sai Lucinda, perseguindo a luz, quase a correr, noto-a a conter-se no passo, e Alberto dá passos como o Chico dança, até que juntam os reflexos num só, e se abraçam a metros do café, o Chico e a mulher a ver também, enleados, enlevados. 

Está na minha hora, despeço-me de Joaquim, da Dona Fernanda e do Senhor Amadeu, do Doutor Felismino que desta vez não diluiu a verve do Joaquim, despeço-me do Chico, da mulher que me entrega os rissóis para o almoço, ainda estão quentes, vou agasalhá-los quando chegar a casa, quero manter este calor, quero mantê-los assim, aos rissóis. E noto que Lucinda e Alberto se mantêm assim, abraçados, envoltos em reflexos de luz. E eu sei que não se jura que é feio, já me dizia Frei João, não jures que é feio, e eu não juro, mas estava quase capaz, que vi com estes olhos, nem ele nem ela tocam o chão. Envoltos no abraço, pairam, e vão girando lentamente, com aquela tranquilidade infinda que apenas se encontra nos ungidos pela luz.

20.9.14

Vénus de ambrósia

Recebo de José Eustáquio de Andrada, anteriormente professor de Literatura Portuguesa em Oxford e actualmente tutor a título perpétuo de Orchidée, uma mensagem manuscrita em papel com o timbre do Mercer Hotel, em Barcelona.

"Meu estimado amigo,

Não sei se saberá, ou se o assunto lhe desperta sequer vago interesse, que o meu saudoso colega Isaías(1) leu pela primeira vez o Dr. Jivago durante a lua de mel, quando aproveitou também para visitar o Bóris(2). Suponho que terá sido uma época tão inesquecível para o magnífico orador que o que passou à posteridade foi a notícia das suas leituras, não a dos seus amplexos.

Não somos todos, é bem certo, os que decidimos contrair matrimónio aos 47 anos, e menos ainda os que optamos por ir passar esses tempos de aconchego a um local tão desaconchegado como Moscovo. Talvez fosse esta a secreta razão que levou a rainha a fazê-lo cavaleiro do império britânico, Sir Isaías, não tanto por ele mas mais para dar algum motivo de alegria à noiva, a pobre Aline, que de pobre, verdade seja dita, nada tinha, herdeira que era de alguns poços de petróleo e de um ou outro banco.

Estou em Barcelona, onde vim porque Artur(3) me ligou de lágrimas nos olhos e voz embargada, para consultas por causa do aborrecimento do referendo. A minha Orchidée, esta estrela que me aponta o caminho para a eternidade, tem-se desvelado a cuidar de mim, a ponto tal que, não sendo eu homem já em idade para uma lua de mel, tenho chamado a esta viagem a minha vénus de ambrósia. Não me alongarei em mais pormenores, como poderá decerto entender. O pundonor assim o obriga.

Conta-me Orchidée que já reabriu a secção de cartas ao director no seu hebdomadário, o que lhe despertou um profundo sentimento de gratidão para comigo, seu tutor de literaturas e filosofias, pelos conselhos que em boa hora lhe fiz chegar. Fala-me ela, no entanto, em voz comiserada,  do tom melancólico das suas prosas, das irrelevância dos temas, de quanto lhes falta colorido, animação nas palavras da minha esmeralda, de quão sorumbático lhe parece o meu amigo. Banhos de água fria, meu caro, banhos de água fria. Não há nada que não se resolva com sobreabundante água fria, logo pela manhã, antes de atacar o seu porridge. Vá por mim, vá por mim.

Isso e a nossa perdiz de escabeche, que aguardará por nós na próxima semana, não está decerto esquecido o meu amigo. Posso pedir aqui a Orchidée, este rio onde os meus olhos ganham luz, para lhe enviar uma destas mensagens de poucas palavras, como o meu amigo, das do telefone móvel, para lhe fazer lembrar a data. Sei que ela muito o aprecia e não permitiria que essa sua cabeça de Suão o deixasse ficar mal.

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O ilustre Andrada refere-se a Isaiah Berlin, filósofo, historiador das ideias e professor de Orford.
(2) Bóris Pasternak.
(3) Artur Mas i Gavarró, presidente do Governo Regional da Catalunha.

17.9.14

Cartas ao director

J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, envia-me, em papel do Reid’s Palace, uma missiva a tinta sépia, saída do aparo generoso da S. T. Dupont Olympio, caneta que só troca pelo amplexo caloroso da sua Orchidée. 

"Meu muito estimado amigo,

Orchidée encontra-se inconsolável e pediu-me para interceder por ela, por esta via. Diz-me a pérola que ilumina os dias do meu ocaso, ter tido o meu angustiado amigo, nesse hebdomadário que publica na Internet, uma secção de cartas ao director, a que ela chama misteriosamente comentários, e que por algum capricho incompreensível, como são sem excepção os seus, terá decidido encerrá-la sem dar explicações aos três leitores que ainda têm a generosidade, direi mesmo a complacência, de o ler.

Pois, se até Agustina, meu caro, até Agustina, enquanto directora d’O Primeiro de Janeiro manteve tal secção, porque carga d’água, terá optado por calar, sim calar, a voz dos leitores, evitar o contraditório, cercear opiniões mais ajuizadas até que, dizem-me, as das suas croniquetas? Que diriam Camilo, Oliveira (1), Antero, Eça, todos escribas d’O Primeiro de Janeiro, antes de Maria Agustina como terá percebido, todos polemistas de verve aberta e verbo rápido, e todos apreciadores,  decerto, da leitura de uma boa carta ao director, nunca lhes minguando a pena ou o bordão para a volta do correio?

Diz Orchidée, este anjo que transforma os meus dias em noites e as noites em dias, andar ela a esboçar há vários dias, nai, semanas, uma missiva para enviar  à sua gazeta, e eis senão quando o meu queridíssimo amigo, como ela diria e cito (sic) se corta como gente grande, e obriga a missiva a ficar na gaveta, e à minha orquídea, inconsolável nos meus braços.

Ora faça-me então o obséquio de reservar, nesse objecto electrónico onde aparentemente arquiva a agenda, um espaço generoso para repastarmos no Pabe, na próxima semana, quando estarei de regresso a Olissipo. Quem sabe se almoçar finalmente como manda a lei, não lhe trará a luz que se lhe escurece com tanta leitura nocturna de Schopenhauer, Kierkegaard e Cioran. E até, com o auxílio daquele Hennessy da minha garrafa guardada, retomar isso das cartas ao director. 

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Oliveira Martins, e não Manuel de Oliveira, como se poderia pensar, dado o contexto.

29.8.14

A insustentável dimensão humana

Após a concepção, o número de células do embrião humano começa a duplicar a cada dia; continuasse a fazê-lo durante os nove meses da gestação, ao longo de duzentas e setenta e quatro duplicações, o ser resultante pesaria mais do que toda a matéria do universo observável; tudo o que conhecemos ou intuímos, tudo o que nos rodeia, à vista descoberta ou a distâncias que nunca alcançaremos, pode mais não ser do que um ente que atingiu uma dimensão insustentável. O universo é, dito de outro modo, um homem fora de controlo.

(Uma hipótese idêntica está na base da teoria do universo inflacionário, e do big bang original)

25.6.14

Por vezes apetece abrir uma música como um vinho há muito nas caves, à espera do dia exacto


Jean-Baptiste Lully, Chaconne des Scaramouches, Trivelins et Arlequins

24.6.14

Galos literários e outras aves madrugadoras

Quando aparecem pessoas a dizer "Leio só bons livros", aflige-me que não se reaja como se reagiria a um nutricionista que recomendasse ao povo comer apenas bifes de lombo e cherne fresco. Já no livro mais ilegível de todos os tempos -- Finnegans Wake -- Joyce falava, sem essas pretensões autoritárias, de "esse leitor ideal sofrendo de uma insónia ideal".
Num país onde se liga tanto ao "comer bem" e ao "beber bem", porque é que os amigos e familiares não começam a preocupar-se com quem não lê? Porque é que não se há-de dizer "Ela não anda bem, sabes? Ultimamente, tem estado a ler muito mal...". 

Miguel Esteves Cardoso, Ler, A causa das coisas

Hoje, um galo instalou-se-me na cabeça quando, ao afundar-me no sofá, num café que não frequento habitualmente, logo o Chico não teve culpa, uma estante terá sentido um impulso irresistível de me agitar os neurónios, até então no estado contemplativo matinal. Depois de ter visto não apenas estrelas, mas a Via Láctea por inteiro, concluí que o Universo (a que alguns chamam a Biblioteca) escreve direito por linhas tortas: tenho andado a ler mal, confesso a minha gula, demasiados livros em aberto, debicando volumosos tomos com belas lombadas, letras douradas, saídas da melhores editoras americanas, tasquinhando outros electrónicos, gentilmente cedidos pelo meu bom amigo Bezos, a troco de modesto estipêndio, nesta inconstância até "A Morte sem Mestre" é degustado a um poema por dia, perco-me em tapas literárias, não usufruo de cherne fresco por inteiro, muito menos de bife de lombo. Justiça literária, portanto, a perpetrada pela estante.
Espero que o galo não cante durante a noite, com o fito de me dar a tal insónia ideal: já bastam os pássaros que se aninharam na varanda, certamente me sabem melómano e decidem pagar a renda com a  sua irrepressível veia lírica. A partir das seis da manhã. 

22.6.14

O café das viagens

Ainda nem o Correio da Manhã tinha chegado ao café, já a chávena à minha frente concentrava o reflexo da janela, julgo que é também por isso que o bebemos, pensando bem, é a única bebida que contém a luz toda: negra.  Não tinha chegado o Correio, o da manhã, mas esta trouxera consigo o Alexandre, gestos urgentes, de quem tarda uma viagem, o carro parado frente à farmácia, o que vale é que é domingo. Conto ao Chico do Janus, colega dele com estabelecimento aberto ao público no outro lado do mundo, onde as gaivotas são grandes, diria como galinhas poedeiras, com vista para Darling Harbour, é a única coisa que falta ao café do Chico, tem os melhores pastéis de nata dos hemisférios norte até ao sul, mas não tem vista para um porto, menos ainda para um onde o sol se doira antes de despertar. O Chico dança atrás do balcão, avia o farnel do Alexandre, caixas de empadas, pastéis ainda quentes, rissóis a saltar de vivos, que isto é uma forma de expressão. 
Dizia eu que em Darling Harbour há gaivotas e na esplanada do Chico não, embora às vezes, raramente, uma ave perdida, vinda do rio longínquo por ali acoste ao entardecer. Mas o entardecer ainda vem distante, e eu vejo uma gaivota branca, não bem uma gaivota, mas antes a Sofia, a chegar ao carro do Alexandre, está ele ainda aqui a abraçar os embrulhos meticulosos do Chico, enquanto ela, alvamente vestida, olhos finos com lâminas, fatia todos os cantos da vizinhança antes de entrar. Alexandre, como Sofia, lamina o ar à porta do café, preparando o avanço para o carro, clandestino. Sem o Correio, tenho todo o tempo para completar a viagem de Alexandre e Sofia, traço no tampo, com o dedo, lavrando em açúcar os caminhos das casas de ambos até este ponto, no presente, e do café para a liberdade, no carro repleno das iguarias gizadas pela mulher do Chico. O Chico, que é fino como uma taça de cristal, terça olhares comigo, mas não precisamos trocar palavras. 
Por falar em taças, esta tarde ainda volto ao café: vejo no balcão uma máquina nova de cerveja, Chimay, que me eleva o espírito, sinto já o sabor da viagem até ao mosteiro trapista. Não havia Chimay no Janus, apenas Reschs, que é de New South Wales e não da Bélgica. Nem o outro lado do mundo é perfeito: podem ter um porto rutilante de ouro polido ao amanhecer, mas não têm Chimay, nem os pastéis de nata do Chico, os que há são imitações. Alexandre e Sofia, bem levam os genuínos na viagem: não sei se chegarão a encontrar gaivotas pantagruélicas, mas encontrar-se-ão, ou assim esperam, um ao outro. E eu, ao entardecer, tenho encontro a sós com a Chimay. Stravinsky dizia do último quarteto de cordas de Beethoven que, na sua simplicidade, era prosaico. Se tem que ser assim, que o seja: apenas uma taça plena de cobre liquefeito, um pôr-do-sol, retratos do passado, quadros do futuro. Prosaico, mas meu, este quarteto.

20.6.14

Contrariedades, só contrariedades

Orchidée envia-me, da Croisette, pelo Snapchat, enquanto J. E. Andrada proseia com Bernard Pivot (1), umas palavras escritas pela tinta safira do professor, onde reconheço a adjectivação de Fialho:

-- Aquele tipo de santo austero, numa alma de sonhador, sempre calado.

Diz-me ela serem notas do ilustre belenense, sobre a minha pessoa, para as memórias com que já fez contrato com a W. W. Norton & Company (2), tendo auferido copioso adiantamento.

Calado, eu? Mas calado? Eu?

(1) Presidente da Académie Goncourt.
(2) Uma das mais reputadas editoras independentes americanas. José Eustáquio não ia fazer por menos.

19.6.14

Arte poética

Naufragada a minha inspiração prosadora nas ondas mercuriais de Bondi Beach, aconselha-me J. E. Andrada, professor retirado de Magdalen College, a partir do seio acolhedor da sua Orchidée, ao largo de Valletta, que colhendo a minha Coquelicot, me dedique à poesia e com ela alcance quiçá a fortuna, seguindo o receituário camiliano, de que ele se protesta, mais do que seguidor, devoto:
"O meu amor àquela mulher tem quatro estações em cada ano, e cada estação tem três meses. Amo-a em Janeiro, Fevereiro e Março. Cada semana, escrevo-lhe uma poesia palpitante de ternura. No fim de três meses são doze poesias. Depois, Abril, Maio e Junho, são para o ciúme: escrevo doze poesias enfurecidas, tétricas, e incisivas como o rugido do chacal ao qual roubaram a fêmea. Julho, Agosto e Setembro, escrevo doze poesias de cepticismo, estilo híbrido, despedaçador, lancinante, cáustico, enfim, um quírie de insultos contra as mulheres. Em Outubro, Novembro e Dezembro, escrevo doze poesias de desalento, estilo lamuriante, pieguice brava, um memento de fazer chorar as mulheres dos nossos alfaiates, um adeus de Chatterton à vida, uma maldição de Gilbert à sociedade, uma coisa horrível que eu escrevo sempre depois de jantar, com o pesadelo de uma digestão laboriosíssima. No fim do ano de quarenta e oito semanas, tenho quarenta e oito poesias, que vendo a um editor por cinquenta moedas, o mínimo."

18.6.14

As flores de Mrs Dalloway

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa em Oxford, acolhe-se em Mdina (1) à sombra de Orchidée, a diva que lhe alegra os dias recentes e envia-me, para o outro lado do mundo, uma mensagem de correio electrónico escrita a tinta safira, saída do aparo vítreo da invicta S. T. Dupont Olympio.

"Meu prezado correspondente,

Orchidée esteve a ler aquele hebdomadário que publica na Internet e ao ver lá a foto do porto de Sidney veio saltitante como um dos descendentes do Skippy (2), que encontrará decerto aí nos fundilhos do mundo. 
"Diga-lhe que não se esqueça de ir a casa da Nicole, a Milsons Point (3)" solicita-me a minha Butterfly que lhe transmita. 
Sabe como é a Orchidée, ficou amicíssima da Kidman, desde aquela coisa lá da rodagem das Horas, do Cunningham. Afirma-se mesmo "BFF", numa terminologia que o nosso estimado Malaca não aprovaria decerto para o seu magnum opus.
Admitia eu que nesta idade os meus sentimentos seriam mais superficiais do que já foram, como diria o chorado Bernard Anthony (4), mas esta Orchidée, sacia de ambrósia cada hora do meu ocaso. 
O que o meu amigo precisa, para aliviar essa sua tez de Rasputine escanhoado seria, não diria uma Orchidée, que esta é exemplar irreproduzível, mas ao menos uma Coquelicot. Tal como Mrs Dalloway, está na altura de ir colher as suas flores (5).

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Antiga capital de Malta, conhecida pelos seus monumentos bem preservados e pelo calor esmagador que por lá se faz sentir
(2) Um canguru, estrela de uma série de televisão australiana, que o professor terá visto nos seus tempos de universitário
(3) Local onde o escriba destas linhas não desdenharia fazer parte da vizinhança do casal K&K
(4) Antigo agente do MI5, estabelecido há muitos anos na Várzea de Sintra, onde se tornou conhecido como escritor obscuro
(5) O professor deturpa a frase de abertura mais famosa da história, mas sabe que o faz

12.6.14

Sobre o uso do rapé

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, residindo esta semana nos braços de Orchidée, em Positano, na Costa Amailfina, envia-me uma mensagem escrita a tinta safira, saída do aparo profícuo da sua S. T. Dupont Olympio. 

"Meu prezado amigo,

Recorda-se por certo que Calisto Elói (1) trocou o rapé, costume indicativo do homem pensador e estudioso, pelos charutos, pelo motivo de que alguns escritores modernos atribuíam ao amoníaco, parte componente do rapé, o desaparecimento das capacidades retentivas pela acção deletéria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encefálica.

Com a profusão de lojas revivalistas a vender os produtos d'antes, era inevitável que lado a lado com o Musgo Real (que sumptuoso creme de barbear, não concorda o meu amigo?) ressurgisse o rapé. Suspeito, meu caro, que nos corredores de São Bento, o cheiro a alcali é intenso, dada a acção deletéria que se vai tornando notória na massa encefálica de alguns leais parlamentares da Pátria. 

Orchidée, esta Bartolli que preenche as minhas horas, solarengas e luarengas (sabe que partilho com Teolinda (2) a preferência pelo Guimarães(3), por isso perdõe-me certas inovações de linguagem), bem me gaba a minha excelente dentição, para a idade. Devo-o a também aos conselhos de Elói, esse filósofo olvidado, que afirmava que a fumarada do charuto, além de ser purificante e antipútrida, dá aos alvéolos solidez e consistência aos dentes.

Não se tente também o meu amigo, que se considera homem estudioso e pensador, pelo rapé. Uma visita à Casa Havaneza, e uma viagem à Lombardia, farão decerto maravilhas por esse ar macilento que lhe notei durante o almoço no Pabe.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O professor de Magdalen refere-se "A queda de um anjo" de Camilo

(2) Teolinda Gersão, que Andrada trata com esta familiaridade excessiva

(3) João Guimarães Rosa, que José Eustáquio terá encontrado ainda durante uma passagem pelo Brasil, na adolescência

11.6.14

Postal de Positano

Recebo um postal de José Eustáquio de Andrada, na sua bela caligrafia cuidada nos clubes de escrita artística de Oxford. O professor de Magdalen, que insiste em não se separar da S. T. Dupont Olympio até para escrever correio electrónico, fotografou as elegantes letras a azul safira e enviou do telefone o seu bilhete de férias. Diz-me ele:

"Meu caro, 

Estou tentado a dar razão ao estimável P. G. (1) que dizia: "Tudo o que na vida dá prazer, como alguém sabiamente observou, é imoral, ilegal ou engorda." 
Tirando ter evitado meticulosamente dar qualquer motivo aos Carabinieri para me visitarem nos modestos aposentos que me cabem, e à Orchidée, neste  hotel periclitantemente encavalitado na rocha (sabe que me contam que a Madonna já por cá pernoitou? o que é que isto lhe diz sobre a decadência dos meus gostos?), podia gastar aqui rolos de fotografias destas de telefone a tecer encómios às horas aprazíveis que passei desde que saímos do Restelo (ah, a Orchidée, meu caro, uma Butterfly, uma autêntica Gheorghiu (2)).

Uma vez que não vá parar ao Torel (3) e mantenha esse IMC que tanto lhe custou a atingir, veja se decide fazer qualquer coisa que lhe levante esse ar sorumbático.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O professor refere-se, claro a P. G. Woodehouse, que ele afirma ter conhecido num clube em Londres, ainda antes de se estabelecer em Oxford.
(2) O ilustre Andrada prefere notoriamente Gheorghiu a Callas no papel de Butterfly.
(3) Para o reformado de Magdalen, Torel ainda é sinónimo de prisão.

10.6.14

Descendo a Braamcamp até Positano


José Eustáquio de Andrada acaba de me falar do hotel em Positano, no Sul de Itália, para onde parte amanhã, abraçado ao seu amor primeiro, ou seja, o inaugural deste mês de Junho, enquanto descemos a Braamcamp, ele em passo miúdo, cabeça reluzente, cara tisnada de quem passa tempo em excesso a reflectir nas questões prementes da humanidade, junto à piscina.
Reformado, regressado ao Restelo, à casa que Andrada, Pai, lhe deixou em legado, sem saudades evidentes dos pátios do Magdalen College, Oxford, onde ensinou Literatura Portuguesa desde o ano em que Thatcher se tomou de razões com Galtieri (1). Anos passados na Velha Albion, causaram-lhe um lábio superior rígido (2) que neste trajecto está notoriamente ausente. À minha curiosidade sobre o ar seráfico que lhe ilumina o rosto, cita Russel para justificar a viagem:
-- Itália, a Primavera e o primeiro amor devem fazer feliz até a pessoa mais soturna.
E enquanto eu penso que já Itália me bastava, e uma estada na Toscana não era mal lembrado, que deixo a Costa Amalfina a Eustáquio, o professor de Magdalen acena para um táxi que o levará de volta aos braços da sua génese amorosa e ainda tem tempo para espicaçar:
-- E saberá o meu caro porque é que os táxis londrinos têm os tectos altos?
Deixa suspenso o meu olhar em branco pelo tempo que um pardal leva a esvoaçar entre os beirais dos dois lados da rua, e remata:
-- Pois que é para neles podermos entrar de cartola.
E eu que julgava que era para quem se desloca com preciosidades como, quicá, um Canaletto, um Calder, ou companhia para jantar em certo restaurante em Harcourt Street, alcandorada em sapatos Caroline Groves. E pela primeira vez me ocorre que visitar Cremona num autêntico cab londrino deve ser uma experiência digna de uma realidade alternativa. Tenho que me apressar, que a Primavera está quase no fim.

(1) Presidente argentino que ordenou a invasão das Falkland
(2) Stiff upper lip

7.6.14

Cartas em tom de safira

Kerstin Wagner, Tiefer, tiefer, und in der Tiefe ist das licht

Se me cruzar com Joanne, dir-lhe-ei que safira é a cor que brota das fontes interiores. Dir-lhe-ei que trouxe tinteiros de Sapphire, e eram os últimos, já se não fabricam mais, de uma certa loja perdida em Paris, não longe do Haussmann. Dir-lhe-ei que liquefiz a minha alma, misturei na tinta, preservei em azul: as letras bailam, à superfície, aguardam somente o pretexto da caneta para acariciarem o papel. Se me cruzar com Joanne, dir-lhe-ei que é no rio do aparo que sigo e mais: que é nele que, dissolvido, me reconstruí . 

25.5.14

Domingo, à sombra

Édouard Vuillard, Na cama, 1891, Musée d'Orsay

Quando o sol não extrair de mim sombra, irei votar, os escuteiros aguardarão à porta, eu generoso, pois claro, um calendário faz sempre falta, talvez estejam também os senhores das sondagens, porque não, à tarde já se saberá o resultado, olha o meu amigo Joaquim, só nos vemos em dias de eleições, não é verdade, temos que combinar o tal almoço, temos, mas isso é mais tarde, quando o sol estiver acomodado no telhado e eu puder caminhar sem perturbar a luz. Agora, é o caminho da luz que me não perturba: debaixo dos lençóis, olhos cerrados, aconchego-me na sombra total, como se habitasse o quadro de Vuillard, ainda longe do dia, impaciente lá fora. Penso na sombra de Joanne, porque é que recordarei agora a sombra dela? as nossas sombras nunca transpuseram juntas a sombra d'Orsay, mas há tantas sombras que nunca se dissolveram na d'Orsay, as nossas são apenas mais duas, não é? apenas mais duas. Mas hoje era um bom dia, Joanne, um dia bom, para as sombras se perderem juntas, para perdermos as sombras, na sombra d'Orsay.

24.5.14

Um rio nocturno, interminável

(...)

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Vinicius de Moraes

(Dois tercetos do Soneto do amor como um rio)

18.5.14

O café das surpresas

-- Tenho uma surpresa para ti
anuncia-me o Chico, antes de eu conseguir açambarcar os jornais, mal refeito do dilúvio de luz matinal, ainda a ganhar o equilíbrio após o excesso de azul. Ia eu para falar ao Chico desse céu, é bom começar o dia com esperanças, e surge-me ele a fazer caixinha, o maroto, não abre o jogo, sorriso matreiro, fico suspenso da revelação, será que vou ter que esperar até chegar a mulher da fava-rica, ou que a senhora robusta cante os blues? Por falar em chegar, não chegou ainda o Doutor Marcelino, ornitólogo nas horas vagas, gosta de discorrer sobre a passarada, descrever as plumagens, os vôos, os rituais, já me convidou para ir com ele cedo, vê-las ajudar o sol a nascer, pois que ele partilha comigo a teoria de que sem aves, não haveria razão para o sol cintilar. Um dia Doutor Marcelino, um dia, pela manhã, irei, prometo, prometo.
Quem já chegou foi a Sofia, que palavreia animada com o Leonardo, enquanto o Chico volteia no café como os voadores do bom Doutor. A surpresa está guardada, o Chico dança o tango do balcão tira café, entrega café, em passos de milonga. Dançam os olhos de Leonardo uma milonga com os de Sofia, vejo-os daqui, Leonardo estende as mãos, hesita no toque, as mãos param a meros milímetros das de Sofia, dançam os olhos mas não as mãos. Conversa bem Sofia, que eu bem sei, oferece música na voz, Leonardo bebe-lhe as notas, como se fossem de uma sinfonia de néctar. 
-- Hoje tenho tarte
sussurra-me o Chico, o segredo, é rara a tarte do Chico, a mulher guarda em cofre a receita milenar que vem pelo menos da mãe dela. Escassa e preciosa, a tarte, apenas clientes selectos têm acesso, ordem de cavalaria do café. A tarte, pois então, como não me lembrei disso, delicada, como uma filigrana, dizemos todos os que já a provámos, notas de cereja, laivos de frutos exóticos.
O olhar de Leonardo está enleado nos lábios de Sofia, inclina-se até quase os provar, terão notas de cereja, também? Notas de cor, pelo menos têm, de cereja madura, carmim, brilhante como a luz que lhe baila na íris. 
Sei que quando estiver a desembrulhar a tarte, depois de almoço, recordarei os lábios de Sofia, as mãos tangenciais de ambos, os lábios na antecâmara do toque. Irrompe o Doutor Marcelino, binóculos de ornitólogo oscilando como um sino, anunciado, bradando, que sem os pássaros, não nasce o sol, e que hoje o parto fora soberbo, um sol, senhores, um sol. E eis que dos dedos de Sofia e Leonardo, assimptóticos, dizia-me a minha avó, não jures, não jures, que é feio, mas eu juro, ainda assim, juro, que nesse mesmo instante, vi um arco voltaico, a uni-los, um mínimo sol, versão liliputiana do que o Doutor Marcelino achou coberto de aves madrugadoras. 
Não levo pastéis de nata, nem rissóis, hoje. Levo a tarte, a antecipação do sabor da cereja com notas de surpresa ao fundo. E um sol, senhores, um sol.

15.5.14

Sueste

Pede-me Joanne que lhe guarde o mar enquanto se ausenta.
-- Tarefa ciclópica 
returco e cerro um olho para lhe surripiar um sorriso. Pois que antes tenho que inventariar, digo:
-- Tenho que contar as falésias, e as grutas, tenho que numerar as conchas, catalogar as pedras roladas. Olha-me suspeitosa, ela, que quer tão somente ter aquele mesmo mar, no regresso. Pergunto:
-- E o sueste, o que arrasta os fogos de Prometeu, os amores de Ofélia, os novelos de Próspero, o que farei com o sueste que desfaz o mar em lâminas de platina, que torna as areias vorazes? Como se reconstrói o mar, após o sueste, como se reboca a saudade, como se caiam os olhares alvos como asas? 
Enrosco-me como uma interrogação, sob o seu olhar complacente.
-- O sueste é um suspiro de saudade, do mar
diz-me Joanne, enquanto o poente incendeia a luz até que dela mais não resta do que a memória. Tarefa ciclópica é, mas já não o digo. Retenho o sueste no peito e começo hoje a enumerar ondas. No regresso de Joanne, nem uma estará ausente: guardador é o que conserva o molde do mar. 

8.5.14

A matéria de que é feita a alma


Joanne observa meticulosamente o rio pelo copo, decifrando a cidade pelos reflexos, penso como é magnífico o vinho de fim de tarde, e profere, casualmente, como se descrevesse taninos e notas frutadas:
-- Todos os encontros comportam em si a dor da separação.
Mais não é preciso que a ausência para lacerar a matéria de que é feita a alma, confirmo. Aponto-lhe as margens, que são terras, antes juntas, separadas por intromissão do rio. 
-- Deve-se travar o rio de chegar à foz? pergunta-me.
E a questão inclui a resposta, ambos o sabemos: o rio é engenhoso, achará sempre o caminho, não deixará de encontrar o mar, inútil desígnio interrompê-lo. Joanne levanta mais, apenas um pouco mais o copo, o canto dos vidros a brindar ecoa nas margens.  Sem separação não existia eco, que é uma forma de ponte. Sem a aprendizagem da dor da ausência, não teria valor o encontro, não o que lhe damos quando acontece, fortuito ou planeado. Depreende Joanne, antes de voltar aos taninos e notas frutadas:
-- O prazer do encontro é a conclusão da dor do desencontro.
Olho para os barcos a vogar, não posso discordar, sem as margens separadas, viveriam apenas na esperança de navegar, um dia.
No copo de Joanne encontro o reflexo do meu aceno de concordância.

13.4.14

Marchas para as cerimónias solares

Jean-Baptiste Lully, Marche pour la Cérémonie des Turcs

(Como bem recorda Rui Manuel Amaral, aquele bordão de maestro deve ser brandido com uma certa cautela.)

30.3.14

O tango do café

Já manifestei ao Chico que não gosto que me espreite por cima do ombro, mas ele faz-se esquecido e quando traz o café alonga-se na leitura das minhas revistas, é capaz de ficar na conversa e a ler pelo canto do olho, tem esse dom. Manifestei, mas apenas por uma fronte mais carregada, algumas rugas na testa, sinais imperceptíveis a todos os outros que não ele, como se fosse um código secreto, daqueles dos pintores do Renascimento. A Luísa estava hoje na mesa comigo, e o Chico deteve-se flutuando alguns centímetros acima do meu ombro. Estava a Luísa com o Avelar, o marido, mas o Avelar para o Chico é como se fosse uma montra de vidro, um ente transparente. São um casal, tomam o café os dois, mas para o Chico apenas ela é a cliente. História antiga, há muitos anos o Avelar arrebatou a Luísa ao Chico e ainda hoje lhe dói a alma de cada vez que a vê, isto é, agora, neste momento. Mas disfarça bem ele, o dono de um café torna-se um actor experiente, apenas eu consigo decifrar a frieza para com o Avelar, o calor para com a Luísa. O tal código dos pintores do Renascimento. O Avelar senta-se ligeiramente afastado da mesa, os pastéis de nata foram tomando assento na cintura, ao longo dos anos. O Avelar é homem petisqueiro, dizia eu que os pastéis de nata obrigaram a fazer furos no cinto, isso e os lanches tardios, bem regados. Tem um sorriso elegante, a Luísa, elegante como ela, como o passo dançante do Chico quando se aproxima dela. O Avelar já não dança o tango com a Luísa, cogito eu, mas o Chico dançaria, pés hábeis, rodeando a cadeira aproximando-se em espiral, actor experiente e dançarino exímio. A mulher dele, ao longe vigiando a coreografia, o Chico dança apenas as notas que estão na pauta, tangos de Piazzolla, não milongas porteñas, improvisadas. Eu e a Luísa falamos das eleições francesas, do avanço da filha mais nova do tenebroso senhor, outros tangos que se dançam em Paris, o Avelar tem um telefone novo, inteligente, os dedos aprendendo a dançar no ecrã. O Chico vem folhear a minha Economist, ver o artigo da capa, comenta que o futuro está nos robôs, que os robôs um dia serão até capazes de pegar num telefone, telefonar melhor que as pessoas. Eu discordo, o futuro está sempre nas pessoas, ainda que os robôs venham a dançar o tango, como os dedos nos ecrãs dos telefones inteligentes. A Luísa confirma com a cabeça, ela acredita nas pessoas mais que nos robôs, e num instante, numa fracção de segundo capto um pestanejar dela para o Chico, um sorriso doce, o futuro está nas pessoas, sim. O Chico dança um tango de Piazzolla, a melodia escrita na pauta, a Luísa dança com o Chico uma dança invisível e impossível, o Avelar dança com o telefone, inteligente. Eu abro a mão para a mulher do Chico, atrás do balcão, cinco dedos afastados, hoje são cinco, hoje levo cinco rissóis. Apetece-me um número ímpar. Quando os pares são inexequíveis, os ímpares são a nossa redenção.

23.2.14

O eterno retorno

Dizia-me o Chico, há pouco, que o homem estava de regresso, e com invejável sorriso, nem mais. Ainda bem que disse explicitamente “o homem”, e eu ouvi perfeitamente, senão pensaria que era de certo personagem das obras de Joanne Rowling, apenas meio humano (meio-sangue, na terminologia fantástica da autora), de que se falava. 

A realidade segue de perto a literatura, o que me leva a imaginar que talvez o arquitecto supremo seja um leitor compulsivo: vejo-o a autorar-nos como Pierre Menard, criador do Quixote, em Borges, ou a reimaginar a nossa realidade à luz dos aforismos de La Serna. 

Sabemos dos livros, originadores de filmes, repostos de forma infinda nos canais de cabo, que as notícias das mortes, como a de Twain, são sempre grandemente exageradas. Lavoisier argumentava que em vez da perda havia transformação. Eu argumento que não: a nossa visão pode alterar-se, mas os invariáveis permanecem. Como Rowlings bem articulou para milhões de leitores, e depois espectadores, a essência permanece, apesar das alterações múltiplas na forma. 

Poderemos não pronunciar nomes, para não erodir as palavras, a nossa visão até poderá ser mistificada, mas o cerne é estático. Não há retorno, porque nunca chegou a haver partida: fácil é regressar quando nunca saímos do mesmo sítio.

25.1.14

O café das noites brancas

O dedo dele avança longamente a desenhar os olhos dela, sobrancelhas, pálpebras, cantos, e assim lhe modela a boca num sorriso. Um encantador sorriso, acrescentaria, quando ela lhe apanha a mão e a beija como se os lábios sorvessem a pele, como se dali viesse o ar que lhe faz bater o coração.
Nunca os vi antes no café: levanto uma sobrancelha interrogadora para o Chico e ele devolve-me os ombros encolhidos, em forma de incógnita. Passantes de fugida, refugiados de uma noite branca, primeiro pequeno almoço conjunto, talvez. Há algo no brilho do olhar dela, olhos marejados de sono e esperança, que me diz que sim, que estão nas horas da descoberta, navegadores acabados de aportar às areias do dia primeiro. 
O Fernando, na minha mesa, detém-se, chávena nos lábios, enquanto me pergunta se já sabia que a irmã Aveiro suspira agora por um pugilista, paixão bem apanhada pela Vidas, esse indispensável compêndio da actualidade. Pugilistas, recordo-me de Belarmino e de La Motta, touro enraivecido, que se queixava que tinha mãos pequenas, mãos de menina, um homem dos socos com mãos de infância, que ironia.  Mãos como as dela, ali duas mesas à esquerda do Fernando, sentindo a barba dele, ainda de um dia, e eu a suspeitar que virá a ser de mais. De frente para mim, os cabelos longos são uma cortina para o Chico que, solícito, vem ter comigo, subornando-me com mais um café, apenas para ficar aqui, como se estivesse distraído a ver as notícias das praxes, que alastram como fogos em palha. Fala-me da reportagem que mostrou ontem uma peça nos telejornais, que isto das praxes é como se fossem sociedades secretas. O que é que por cá não é como sociedades secretas, digo eu. Até o café por vezes me parece uma, acrescento, ao Chico, que se ri, mais sabe ele, que faz parte do grupo da jogatana que juntará hoje à noite, quando a porta fechar. El contado, pois então. Por isso, ao domingo, o Chico ainda esfrega os olhos ensonados, por causa da sociedade do jogo da sueca.
Ele, o homem que desenha um rosto, duas mesas à esquerda do Fernando, também esfrega os olhos, agora, enquanto se apoia a ela e saem como se o abraço os transmutasse num só corpo, tipo de sorte, diz-me o Chico, com uma piscadela. E desta vez, mesmo sabendo que já tomei os meus dois cafés da manhã, que levo mais os pastéis que comi e os que hei-de comer, que dormi bem e vou almoçar melhor, concordo, é um tipo de sorte, ambos são de sorte. Nada há de maior sorte que essas horas matinais depois da primeira noite branca, nada há, penso, enquanto sinto nas mãos o calor dos pastéis que levo embrulhados para a sobremesa.

18.1.14

O café das mãos entrelaçadas

Uma boca de crocodilo, em cima da mesa do café, é o que me fazem lembrar as mãos do Alfredo a engolir as da Quina. Leva jeito, o Alfredo, quando as junta perto dos pulsos, criando uma ternurenta mandíbula, que de um golpe rápido e certeiro ingurgita as mãos correspondentes aos olhos sorridentes em frente. O café pode esperar, parece pensar o olhar brilhante, fingindo debater-se para se livrar das improvisadas algemas de carne e pele. 
À minha frente, o Aníbal, visivelmente contrariado, diria desiludido, por a sua musa Irina se ter decidido finalmente a  partilhar a novela da noite com a Dona Aveiro, ignora o festim de mãos, no tampo ao lado. Persistente, o crocodilo, ataca, contra-ataca, sequestra e deglute, infatigável. O Chico tinha-me dito: “Horas, podem estar assim horas.” Boas horas, para o Chico, que vai trazendo cafés não solicitados, mas sempre apreciados. 
Tem olho para o negócio o Chico, uma mesa tem que render pelo menos quatro cafés por hora, ou em alternativa, dois cafés e dois pastéis de nata. E isso, num dia de semana, depois da hora de ponta, ao sábado o negócio tem que ser melhor. Eu sou só lucro líquido, em cafés e pastéis, ajudo o plano de reforma do Chico como posso, amigo do meu amigo, sempre fui. Duas mesas à frente, a Elisabete do anoraque branco, nó de mãos dado com o hoodie borbulhento, prova que o amor tudo vence. Até o evidente esgar com que o pai Jorge, ela nem namorado tem, nem namorado, encara a coca-cola quase tapada pela manga do hoodie. Quem, no café do Chico, ansiaria por um futuro genro que bebe cafeína de manhã de uma lata vermelha em vez de uma chávena de porcelana de Ílhavo, distrito de Aveiro? E já que surgem perguntas difíceis, será que a Dona Aveiro vai ter que explicar à Irina tintim-por-tintim, as tramas de Belmonte, sob o olhar aprovador do laureado Cristiano? Dúvidas, só dúvidas.
O Aníbal fala-me agora da freira que concebeu sem sombra de pecado, milagre dos tempos modernos como se fossem os antigos, quem diz que estas coisas aconteciam apenas há dois mil e catorze anos? Sem sombra de pecado, como as mãos do Alfredo e da Quina, enleadas, enlevadas, diz o Chico: “Sabes que eles... não...?” e deixa as reticências a pairar no ar como o aroma do café. Como saberá o Chico, ele que sabe tudo o que se passa pela frente e por trás das portas fechadas? Diz-me a Lina que o Chico parece que escuta as chávenas de café, como se encostam os búzios aos ouvidos. São elas que lhes contam os segredos que mais ninguém sabe. Não de certeza o Aníbal, esse céptico que não acredita que a freira não imaginasse o seu ventre estava a conceber o jovem Francisco.  Não de certeza o pai Jorge, que vai agora pagar a lata vermelha do hoodie, que apesar de tudo, passou a ser convidado à mesa desde que saiu da sombra da árvore onde se escondia há semanas.
Antes de ir em busca do sol que parece querer fugir depressa para trás das nuvens, dou uma última mirada aos olhos da Quina, felizes, nas mãos de Alfredo. Já não se fazem namoros assim, já não. Estes tempos modernos é como se fossem os antigos, penso, enquanto vou cheirando o pacote dos maravilhosos rissois quentes que a Lina esteve a embrulhar meticulosamente. Acho que não aguentam até chegar a casa, é cá um palpite que tenho. E nestes, não costumo falhar.

13.1.14

Perdiz à Convento de Alcântara



Apesar dos apelos desesperados do Wall Street Journal, este blog ainda não se rendeu às receitas da omnipresente Bimby. Por enquanto. Mas sendo este um estabelecimento que prima pela boa hospitalidade, não queremos que nenhum cliente saia mal servido. Portanto, aqui vai, uma Perdizinha à Convento de Alcântara para quem tiver tempo para levar dois dias a preparar o que é considerado o único prato português tradicional de alta cozinha.

História 

Segundo Oliveira Bello -- gastrónomo e fundador, em 1933, da Sociedade Portuguesa de Gastronomia -- no seu livro "Culinária Portuguesa", esta é a receita que Auguste Escoffier (1846-1935), grande chef francês, refere no seu "Guide Culinaire." Diz-se que esta receita de perdiz terá sido encontrada pelos soldados de Junot quando saquearam o convento de Alcântara em Lisboa (ora vejam lá as vantagens das invasões francesas, hein?). A Duquesa de Abrantes (Senhora Junot), tendo tido conhecimento da receita, transcreveu-a nas suas memórias e Escoffier descobriu-a e colocou-a no seu "Guide Culinaire." O que se segue é fruto de uma pesquisa exaustiva (exaustiva!) a várias fontes que com alguma boa vontade podem ser consideradas históricas.

Receita
  • 3 perdizes
  • 250 gr foie gras
  • 100 gr trufas
  • 2 garrafas vinho do Porto seco
  • 60 gr manteiga
  • 500 ml caldo de ave (caldo de perdiz de preferência)
  • sal
  • fatias de pão
  1. Arranjam-se as perdizes, desossam-se com todo o cuidado, esfregam-se com sal por dentro e por fora.
  2. Recheiam-se com o foie gras e as trufas, partidas em pequenos pedaços, refazendo a forma original da perdiz.
  3. Atam-se as perdizes e colocam-se em infusão (devem ficar bem cobertas) de vinho do Porto, durante 2 dias.
  4. Colocam-se as aves num tacho e vão a cozer no vinho da infusão, em lume brando, até ficarem tenras e com o molho reduzido e espesso.
  5. Depois de cozidas, colocam-se as perdizes numa caçarola untada com manteiga, sobre uma camada de trufas e regam-se com todo o molho da cozedura ligado com 1 dl de geleia de caça para cada perdiz.
  6. Tapa-se bem a caçarola e vai ao forno durante 45 minutos em calor moderado.
  7. Dispõem-se as perdizes sobre fatias de pão branco ligeiramente fritas em manteiga e regam-se com o molho.
  8. Servem-se quentes ou frias.

(Créditos: Câmara Municipal de Lisboa, Bertha-Rosa Limpo, Jorge Brum do Canto; Foto: José Ardaiz)

12.1.14

À espera do sol, à porta do café

Gosto desta mesa, recorda-me o sol do Verão, cervejas geladas em finais de tarde intermináveis de conversa, saboreadas a camarão mindinho, quando me sento na esplanada improvisada do café. O Chico voltou a colocá-la cá fora, como ontem, esperançado que o sol decida regressar, glorioso, rompendo o cinzento do dia. Os círculos de luz dão ao líquido escuro que treme na chávena uma aura oracular, como se neles conseguisse ver os destinos dos passantes na rua, que deitam um olhar guloso aos meus pastéis de nata e por completo me ignoram. 
O Correio da Manhã que sequestrei à chegada, um despojo por ter arribado cedo, fala-me dos quilos ganhos durante as férias por Rita Pereira. É um problema grave, isto de se atrair peso quando uma pausa surge nas luzes diárias da ribalta. Como agora, com estes pastéis de nata, dourados, a reluzir no prato branco, autênticos imanes de camadas adiposas. A Rita Pereira, talvez olhasse para eles e dissesse, qual o outro Chico (o Buarque de Hollanda, com dois “ll”), “afasta de mim esse cálice”. Eu, que acredito que o espírito pode estar pronto, mas a carne é fraca, dou mais uma dentada no segundo pastel, enquanto o terceiro aguarda a vez, coberto por um manto branco de fino açúcar. É fraca a carne, mas os pastéis são divinos. 
Branco, imaculadamente branco, é o anoraque da Elisabete, que surge com o pai, polegares velozes no telefone, sorriso rasgado para mim, bom dia. Do outro lado da rua, junto à árvore há um par de mãos, com um telefone veloz, desde há minutos atrás. Curiosa dança, esta a dos dedos: Elisabete levanta os dela, os outros começam a mover-se como se o mundo acabasse caso eles parassem, telepatia à velocidade da luz. O Jorge, pai da Elisabete pára a falar comigo, enquanto a filha se senta no café do Chico. Está uma bela rapariga, a Elisabete, digo, está uma bela rapariga, qualquer dia ele tem que começar a pensar no casamento. Com um sorriso orgulhoso, diz-me o Jorge, ela só pensa na média de entrada em Medicina, nem namorado tem. Repete, nem namorado tem, nem namorado.
Olho para o outro lado da rua, para os dedos próximos do tronco da árvore, a passarem pelo ecrã do telefone a uma velocidade mais furiosa. O Chico conversa por perto, peço-lhe para colocar três pastéis de nata na mesa do Jorge, à minha conta. Na direcção do meu olhar, o telefone veloz dirige-se cuidadoso para o café. Sorri, o Chico, é esperto, sempre foi. Percebe de pessoas que usam telefones como a mulher dele, aquela doceira inspirada, percebe de pastéis. 
É domingo, daqui a pouco vou buscar os rissóis. Antes disso, vou pagar os seis pastéis. Os meus três, mais os três para o Jorge. À saída, cruzo-me com um telefone mais hesitante agora. Vejo umas borbulhas vermelhas a reluzirem entre a penugem na cara, um suspiro fundo, o telefone a refugiar-se no bolso do hoodie. O Chico depois conta-me, tenho a certeza que conta.

8.1.14

Na rebentação a apanhar as palavras para te construir

As ondas trazem as palavras flutuando como salvados. Destroços de amores desfeitos contra rochas num temporal distante: de paixões navegando à vista em águas revoltas. Atirados pelas correntes contra os adamastores do mar do fim bocas vorazes de negro. Sobram sílabas órfãs vocábulos com arestas rolando nas areias ansiando pela suavidade que é da pele. Busco as palavras tornadas transparentes por imitação da água. É com as palavras que sangram quando arrancadas da areia que te invento. Artesão meticuloso não adivinho que o tu que construo é o que comigo vogará no vazio que se segue à vertigem. Quando um escolho nos estilhaçar a nossa diáspora será declinada em vogais. Alguém tentará reconstruir-nos de palavras dispersas. Em vão.