12.1.14

À espera do sol, à porta do café

Gosto desta mesa, recorda-me o sol do Verão, cervejas geladas em finais de tarde intermináveis de conversa, saboreadas a camarão mindinho, quando me sento na esplanada improvisada do café. O Chico voltou a colocá-la cá fora, como ontem, esperançado que o sol decida regressar, glorioso, rompendo o cinzento do dia. Os círculos de luz dão ao líquido escuro que treme na chávena uma aura oracular, como se neles conseguisse ver os destinos dos passantes na rua, que deitam um olhar guloso aos meus pastéis de nata e por completo me ignoram. 
O Correio da Manhã que sequestrei à chegada, um despojo por ter arribado cedo, fala-me dos quilos ganhos durante as férias por Rita Pereira. É um problema grave, isto de se atrair peso quando uma pausa surge nas luzes diárias da ribalta. Como agora, com estes pastéis de nata, dourados, a reluzir no prato branco, autênticos imanes de camadas adiposas. A Rita Pereira, talvez olhasse para eles e dissesse, qual o outro Chico (o Buarque de Hollanda, com dois “ll”), “afasta de mim esse cálice”. Eu, que acredito que o espírito pode estar pronto, mas a carne é fraca, dou mais uma dentada no segundo pastel, enquanto o terceiro aguarda a vez, coberto por um manto branco de fino açúcar. É fraca a carne, mas os pastéis são divinos. 
Branco, imaculadamente branco, é o anoraque da Elisabete, que surge com o pai, polegares velozes no telefone, sorriso rasgado para mim, bom dia. Do outro lado da rua, junto à árvore há um par de mãos, com um telefone veloz, desde há minutos atrás. Curiosa dança, esta a dos dedos: Elisabete levanta os dela, os outros começam a mover-se como se o mundo acabasse caso eles parassem, telepatia à velocidade da luz. O Jorge, pai da Elisabete pára a falar comigo, enquanto a filha se senta no café do Chico. Está uma bela rapariga, a Elisabete, digo, está uma bela rapariga, qualquer dia ele tem que começar a pensar no casamento. Com um sorriso orgulhoso, diz-me o Jorge, ela só pensa na média de entrada em Medicina, nem namorado tem. Repete, nem namorado tem, nem namorado.
Olho para o outro lado da rua, para os dedos próximos do tronco da árvore, a passarem pelo ecrã do telefone a uma velocidade mais furiosa. O Chico conversa por perto, peço-lhe para colocar três pastéis de nata na mesa do Jorge, à minha conta. Na direcção do meu olhar, o telefone veloz dirige-se cuidadoso para o café. Sorri, o Chico, é esperto, sempre foi. Percebe de pessoas que usam telefones como a mulher dele, aquela doceira inspirada, percebe de pastéis. 
É domingo, daqui a pouco vou buscar os rissóis. Antes disso, vou pagar os seis pastéis. Os meus três, mais os três para o Jorge. À saída, cruzo-me com um telefone mais hesitante agora. Vejo umas borbulhas vermelhas a reluzirem entre a penugem na cara, um suspiro fundo, o telefone a refugiar-se no bolso do hoodie. O Chico depois conta-me, tenho a certeza que conta.