18.1.14

O café das mãos entrelaçadas

Uma boca de crocodilo, em cima da mesa do café, é o que me fazem lembrar as mãos do Alfredo a engolir as da Quina. Leva jeito, o Alfredo, quando as junta perto dos pulsos, criando uma ternurenta mandíbula, que de um golpe rápido e certeiro ingurgita as mãos correspondentes aos olhos sorridentes em frente. O café pode esperar, parece pensar o olhar brilhante, fingindo debater-se para se livrar das improvisadas algemas de carne e pele. 
À minha frente, o Aníbal, visivelmente contrariado, diria desiludido, por a sua musa Irina se ter decidido finalmente a  partilhar a novela da noite com a Dona Aveiro, ignora o festim de mãos, no tampo ao lado. Persistente, o crocodilo, ataca, contra-ataca, sequestra e deglute, infatigável. O Chico tinha-me dito: “Horas, podem estar assim horas.” Boas horas, para o Chico, que vai trazendo cafés não solicitados, mas sempre apreciados. 
Tem olho para o negócio o Chico, uma mesa tem que render pelo menos quatro cafés por hora, ou em alternativa, dois cafés e dois pastéis de nata. E isso, num dia de semana, depois da hora de ponta, ao sábado o negócio tem que ser melhor. Eu sou só lucro líquido, em cafés e pastéis, ajudo o plano de reforma do Chico como posso, amigo do meu amigo, sempre fui. Duas mesas à frente, a Elisabete do anoraque branco, nó de mãos dado com o hoodie borbulhento, prova que o amor tudo vence. Até o evidente esgar com que o pai Jorge, ela nem namorado tem, nem namorado, encara a coca-cola quase tapada pela manga do hoodie. Quem, no café do Chico, ansiaria por um futuro genro que bebe cafeína de manhã de uma lata vermelha em vez de uma chávena de porcelana de Ílhavo, distrito de Aveiro? E já que surgem perguntas difíceis, será que a Dona Aveiro vai ter que explicar à Irina tintim-por-tintim, as tramas de Belmonte, sob o olhar aprovador do laureado Cristiano? Dúvidas, só dúvidas.
O Aníbal fala-me agora da freira que concebeu sem sombra de pecado, milagre dos tempos modernos como se fossem os antigos, quem diz que estas coisas aconteciam apenas há dois mil e catorze anos? Sem sombra de pecado, como as mãos do Alfredo e da Quina, enleadas, enlevadas, diz o Chico: “Sabes que eles... não...?” e deixa as reticências a pairar no ar como o aroma do café. Como saberá o Chico, ele que sabe tudo o que se passa pela frente e por trás das portas fechadas? Diz-me a Lina que o Chico parece que escuta as chávenas de café, como se encostam os búzios aos ouvidos. São elas que lhes contam os segredos que mais ninguém sabe. Não de certeza o Aníbal, esse céptico que não acredita que a freira não imaginasse o seu ventre estava a conceber o jovem Francisco.  Não de certeza o pai Jorge, que vai agora pagar a lata vermelha do hoodie, que apesar de tudo, passou a ser convidado à mesa desde que saiu da sombra da árvore onde se escondia há semanas.
Antes de ir em busca do sol que parece querer fugir depressa para trás das nuvens, dou uma última mirada aos olhos da Quina, felizes, nas mãos de Alfredo. Já não se fazem namoros assim, já não. Estes tempos modernos é como se fossem os antigos, penso, enquanto vou cheirando o pacote dos maravilhosos rissois quentes que a Lina esteve a embrulhar meticulosamente. Acho que não aguentam até chegar a casa, é cá um palpite que tenho. E nestes, não costumo falhar.