25.1.14

O café das noites brancas

O dedo dele avança longamente a desenhar os olhos dela, sobrancelhas, pálpebras, cantos, e assim lhe modela a boca num sorriso. Um encantador sorriso, acrescentaria, quando ela lhe apanha a mão e a beija como se os lábios sorvessem a pele, como se dali viesse o ar que lhe faz bater o coração.
Nunca os vi antes no café: levanto uma sobrancelha interrogadora para o Chico e ele devolve-me os ombros encolhidos, em forma de incógnita. Passantes de fugida, refugiados de uma noite branca, primeiro pequeno almoço conjunto, talvez. Há algo no brilho do olhar dela, olhos marejados de sono e esperança, que me diz que sim, que estão nas horas da descoberta, navegadores acabados de aportar às areias do dia primeiro. 
O Fernando, na minha mesa, detém-se, chávena nos lábios, enquanto me pergunta se já sabia que a irmã Aveiro suspira agora por um pugilista, paixão bem apanhada pela Vidas, esse indispensável compêndio da actualidade. Pugilistas, recordo-me de Belarmino e de La Motta, touro enraivecido, que se queixava que tinha mãos pequenas, mãos de menina, um homem dos socos com mãos de infância, que ironia.  Mãos como as dela, ali duas mesas à esquerda do Fernando, sentindo a barba dele, ainda de um dia, e eu a suspeitar que virá a ser de mais. De frente para mim, os cabelos longos são uma cortina para o Chico que, solícito, vem ter comigo, subornando-me com mais um café, apenas para ficar aqui, como se estivesse distraído a ver as notícias das praxes, que alastram como fogos em palha. Fala-me da reportagem que mostrou ontem uma peça nos telejornais, que isto das praxes é como se fossem sociedades secretas. O que é que por cá não é como sociedades secretas, digo eu. Até o café por vezes me parece uma, acrescento, ao Chico, que se ri, mais sabe ele, que faz parte do grupo da jogatana que juntará hoje à noite, quando a porta fechar. El contado, pois então. Por isso, ao domingo, o Chico ainda esfrega os olhos ensonados, por causa da sociedade do jogo da sueca.
Ele, o homem que desenha um rosto, duas mesas à esquerda do Fernando, também esfrega os olhos, agora, enquanto se apoia a ela e saem como se o abraço os transmutasse num só corpo, tipo de sorte, diz-me o Chico, com uma piscadela. E desta vez, mesmo sabendo que já tomei os meus dois cafés da manhã, que levo mais os pastéis que comi e os que hei-de comer, que dormi bem e vou almoçar melhor, concordo, é um tipo de sorte, ambos são de sorte. Nada há de maior sorte que essas horas matinais depois da primeira noite branca, nada há, penso, enquanto sinto nas mãos o calor dos pastéis que levo embrulhados para a sobremesa.