8.5.14

A matéria de que é feita a alma


Joanne observa meticulosamente o rio pelo copo, decifrando a cidade pelos reflexos, penso como é magnífico o vinho de fim de tarde, e profere, casualmente, como se descrevesse taninos e notas frutadas:
-- Todos os encontros comportam em si a dor da separação.
Mais não é preciso que a ausência para lacerar a matéria de que é feita a alma, confirmo. Aponto-lhe as margens, que são terras, antes juntas, separadas por intromissão do rio. 
-- Deve-se travar o rio de chegar à foz? pergunta-me.
E a questão inclui a resposta, ambos o sabemos: o rio é engenhoso, achará sempre o caminho, não deixará de encontrar o mar, inútil desígnio interrompê-lo. Joanne levanta mais, apenas um pouco mais o copo, o canto dos vidros a brindar ecoa nas margens.  Sem separação não existia eco, que é uma forma de ponte. Sem a aprendizagem da dor da ausência, não teria valor o encontro, não o que lhe damos quando acontece, fortuito ou planeado. Depreende Joanne, antes de voltar aos taninos e notas frutadas:
-- O prazer do encontro é a conclusão da dor do desencontro.
Olho para os barcos a vogar, não posso discordar, sem as margens separadas, viveriam apenas na esperança de navegar, um dia.
No copo de Joanne encontro o reflexo do meu aceno de concordância.