25.5.14

Domingo, à sombra

Édouard Vuillard, Na cama, 1891, Musée d'Orsay

Quando o sol não extrair de mim sombra, irei votar, os escuteiros aguardarão à porta, eu generoso, pois claro, um calendário faz sempre falta, talvez estejam também os senhores das sondagens, porque não, à tarde já se saberá o resultado, olha o meu amigo Joaquim, só nos vemos em dias de eleições, não é verdade, temos que combinar o tal almoço, temos, mas isso é mais tarde, quando o sol estiver acomodado no telhado e eu puder caminhar sem perturbar a luz. Agora, é o caminho da luz que me não perturba: debaixo dos lençóis, olhos cerrados, aconchego-me na sombra total, como se habitasse o quadro de Vuillard, ainda longe do dia, impaciente lá fora. Penso na sombra de Joanne, porque é que recordarei agora a sombra dela? as nossas sombras nunca transpuseram juntas a sombra d'Orsay, mas há tantas sombras que nunca se dissolveram na d'Orsay, as nossas são apenas mais duas, não é? apenas mais duas. Mas hoje era um bom dia, Joanne, um dia bom, para as sombras se perderem juntas, para perdermos as sombras, na sombra d'Orsay.