18.5.14

O café das surpresas

-- Tenho uma surpresa para ti
anuncia-me o Chico, antes de eu conseguir açambarcar os jornais, mal refeito do dilúvio de luz matinal, ainda a ganhar o equilíbrio após o excesso de azul. Ia eu para falar ao Chico desse céu, é bom começar o dia com esperanças, e surge-me ele a fazer caixinha, o maroto, não abre o jogo, sorriso matreiro, fico suspenso da revelação, será que vou ter que esperar até chegar a mulher da fava-rica, ou que a senhora robusta cante os blues? Por falar em chegar, não chegou ainda o Doutor Marcelino, ornitólogo nas horas vagas, gosta de discorrer sobre a passarada, descrever as plumagens, os vôos, os rituais, já me convidou para ir com ele cedo, vê-las ajudar o sol a nascer, pois que ele partilha comigo a teoria de que sem aves, não haveria razão para o sol cintilar. Um dia Doutor Marcelino, um dia, pela manhã, irei, prometo, prometo.
Quem já chegou foi a Sofia, que palavreia animada com o Leonardo, enquanto o Chico volteia no café como os voadores do bom Doutor. A surpresa está guardada, o Chico dança o tango do balcão tira café, entrega café, em passos de milonga. Dançam os olhos de Leonardo uma milonga com os de Sofia, vejo-os daqui, Leonardo estende as mãos, hesita no toque, as mãos param a meros milímetros das de Sofia, dançam os olhos mas não as mãos. Conversa bem Sofia, que eu bem sei, oferece música na voz, Leonardo bebe-lhe as notas, como se fossem de uma sinfonia de néctar. 
-- Hoje tenho tarte
sussurra-me o Chico, o segredo, é rara a tarte do Chico, a mulher guarda em cofre a receita milenar que vem pelo menos da mãe dela. Escassa e preciosa, a tarte, apenas clientes selectos têm acesso, ordem de cavalaria do café. A tarte, pois então, como não me lembrei disso, delicada, como uma filigrana, dizemos todos os que já a provámos, notas de cereja, laivos de frutos exóticos.
O olhar de Leonardo está enleado nos lábios de Sofia, inclina-se até quase os provar, terão notas de cereja, também? Notas de cor, pelo menos têm, de cereja madura, carmim, brilhante como a luz que lhe baila na íris. 
Sei que quando estiver a desembrulhar a tarte, depois de almoço, recordarei os lábios de Sofia, as mãos tangenciais de ambos, os lábios na antecâmara do toque. Irrompe o Doutor Marcelino, binóculos de ornitólogo oscilando como um sino, anunciado, bradando, que sem os pássaros, não nasce o sol, e que hoje o parto fora soberbo, um sol, senhores, um sol. E eis que dos dedos de Sofia e Leonardo, assimptóticos, dizia-me a minha avó, não jures, não jures, que é feio, mas eu juro, ainda assim, juro, que nesse mesmo instante, vi um arco voltaico, a uni-los, um mínimo sol, versão liliputiana do que o Doutor Marcelino achou coberto de aves madrugadoras. 
Não levo pastéis de nata, nem rissóis, hoje. Levo a tarte, a antecipação do sabor da cereja com notas de surpresa ao fundo. E um sol, senhores, um sol.