15.5.14

Sueste

Pede-me Joanne que lhe guarde o mar enquanto se ausenta.
-- Tarefa ciclópica 
returco e cerro um olho para lhe surripiar um sorriso. Pois que antes tenho que inventariar, digo:
-- Tenho que contar as falésias, e as grutas, tenho que numerar as conchas, catalogar as pedras roladas. Olha-me suspeitosa, ela, que quer tão somente ter aquele mesmo mar, no regresso. Pergunto:
-- E o sueste, o que arrasta os fogos de Prometeu, os amores de Ofélia, os novelos de Próspero, o que farei com o sueste que desfaz o mar em lâminas de platina, que torna as areias vorazes? Como se reconstrói o mar, após o sueste, como se reboca a saudade, como se caiam os olhares alvos como asas? 
Enrosco-me como uma interrogação, sob o seu olhar complacente.
-- O sueste é um suspiro de saudade, do mar
diz-me Joanne, enquanto o poente incendeia a luz até que dela mais não resta do que a memória. Tarefa ciclópica é, mas já não o digo. Retenho o sueste no peito e começo hoje a enumerar ondas. No regresso de Joanne, nem uma estará ausente: guardador é o que conserva o molde do mar.