19.6.14

Arte poética

Naufragada a minha inspiração prosadora nas ondas mercuriais de Bondi Beach, aconselha-me J. E. Andrada, professor retirado de Magdalen College, a partir do seio acolhedor da sua Orchidée, ao largo de Valletta, que colhendo a minha Coquelicot, me dedique à poesia e com ela alcance quiçá a fortuna, seguindo o receituário camiliano, de que ele se protesta, mais do que seguidor, devoto:
"O meu amor àquela mulher tem quatro estações em cada ano, e cada estação tem três meses. Amo-a em Janeiro, Fevereiro e Março. Cada semana, escrevo-lhe uma poesia palpitante de ternura. No fim de três meses são doze poesias. Depois, Abril, Maio e Junho, são para o ciúme: escrevo doze poesias enfurecidas, tétricas, e incisivas como o rugido do chacal ao qual roubaram a fêmea. Julho, Agosto e Setembro, escrevo doze poesias de cepticismo, estilo híbrido, despedaçador, lancinante, cáustico, enfim, um quírie de insultos contra as mulheres. Em Outubro, Novembro e Dezembro, escrevo doze poesias de desalento, estilo lamuriante, pieguice brava, um memento de fazer chorar as mulheres dos nossos alfaiates, um adeus de Chatterton à vida, uma maldição de Gilbert à sociedade, uma coisa horrível que eu escrevo sempre depois de jantar, com o pesadelo de uma digestão laboriosíssima. No fim do ano de quarenta e oito semanas, tenho quarenta e oito poesias, que vendo a um editor por cinquenta moedas, o mínimo."