10.6.14

Descendo a Braamcamp até Positano


José Eustáquio de Andrada acaba de me falar do hotel em Positano, no Sul de Itália, para onde parte amanhã, abraçado ao seu amor primeiro, ou seja, o inaugural deste mês de Junho, enquanto descemos a Braamcamp, ele em passo miúdo, cabeça reluzente, cara tisnada de quem passa tempo em excesso a reflectir nas questões prementes da humanidade, junto à piscina.
Reformado, regressado ao Restelo, à casa que Andrada, Pai, lhe deixou em legado, sem saudades evidentes dos pátios do Magdalen College, Oxford, onde ensinou Literatura Portuguesa desde o ano em que Thatcher se tomou de razões com Galtieri (1). Anos passados na Velha Albion, causaram-lhe um lábio superior rígido (2) que neste trajecto está notoriamente ausente. À minha curiosidade sobre o ar seráfico que lhe ilumina o rosto, cita Russel para justificar a viagem:
-- Itália, a Primavera e o primeiro amor devem fazer feliz até a pessoa mais soturna.
E enquanto eu penso que já Itália me bastava, e uma estada na Toscana não era mal lembrado, que deixo a Costa Amalfina a Eustáquio, o professor de Magdalen acena para um táxi que o levará de volta aos braços da sua génese amorosa e ainda tem tempo para espicaçar:
-- E saberá o meu caro porque é que os táxis londrinos têm os tectos altos?
Deixa suspenso o meu olhar em branco pelo tempo que um pardal leva a esvoaçar entre os beirais dos dois lados da rua, e remata:
-- Pois que é para neles podermos entrar de cartola.
E eu que julgava que era para quem se desloca com preciosidades como, quicá, um Canaletto, um Calder, ou companhia para jantar em certo restaurante em Harcourt Street, alcandorada em sapatos Caroline Groves. E pela primeira vez me ocorre que visitar Cremona num autêntico cab londrino deve ser uma experiência digna de uma realidade alternativa. Tenho que me apressar, que a Primavera está quase no fim.

(1) Presidente argentino que ordenou a invasão das Falkland
(2) Stiff upper lip