24.6.14

Galos literários e outras aves madrugadoras

Quando aparecem pessoas a dizer "Leio só bons livros", aflige-me que não se reaja como se reagiria a um nutricionista que recomendasse ao povo comer apenas bifes de lombo e cherne fresco. Já no livro mais ilegível de todos os tempos -- Finnegans Wake -- Joyce falava, sem essas pretensões autoritárias, de "esse leitor ideal sofrendo de uma insónia ideal".
Num país onde se liga tanto ao "comer bem" e ao "beber bem", porque é que os amigos e familiares não começam a preocupar-se com quem não lê? Porque é que não se há-de dizer "Ela não anda bem, sabes? Ultimamente, tem estado a ler muito mal...". 

Miguel Esteves Cardoso, Ler, A causa das coisas

Hoje, um galo instalou-se-me na cabeça quando, ao afundar-me no sofá, num café que não frequento habitualmente, logo o Chico não teve culpa, uma estante terá sentido um impulso irresistível de me agitar os neurónios, até então no estado contemplativo matinal. Depois de ter visto não apenas estrelas, mas a Via Láctea por inteiro, concluí que o Universo (a que alguns chamam a Biblioteca) escreve direito por linhas tortas: tenho andado a ler mal, confesso a minha gula, demasiados livros em aberto, debicando volumosos tomos com belas lombadas, letras douradas, saídas da melhores editoras americanas, tasquinhando outros electrónicos, gentilmente cedidos pelo meu bom amigo Bezos, a troco de modesto estipêndio, nesta inconstância até "A Morte sem Mestre" é degustado a um poema por dia, perco-me em tapas literárias, não usufruo de cherne fresco por inteiro, muito menos de bife de lombo. Justiça literária, portanto, a perpetrada pela estante.
Espero que o galo não cante durante a noite, com o fito de me dar a tal insónia ideal: já bastam os pássaros que se aninharam na varanda, certamente me sabem melómano e decidem pagar a renda com a  sua irrepressível veia lírica. A partir das seis da manhã.