22.6.14

O café das viagens

Ainda nem o Correio da Manhã tinha chegado ao café, já a chávena à minha frente concentrava o reflexo da janela, julgo que é também por isso que o bebemos, pensando bem, é a única bebida que contém a luz toda: negra.  Não tinha chegado o Correio, o da manhã, mas esta trouxera consigo o Alexandre, gestos urgentes, de quem tarda uma viagem, o carro parado frente à farmácia, o que vale é que é domingo. Conto ao Chico do Janus, colega dele com estabelecimento aberto ao público no outro lado do mundo, onde as gaivotas são grandes, diria como galinhas poedeiras, com vista para Darling Harbour, é a única coisa que falta ao café do Chico, tem os melhores pastéis de nata dos hemisférios norte até ao sul, mas não tem vista para um porto, menos ainda para um onde o sol se doira antes de despertar. O Chico dança atrás do balcão, avia o farnel do Alexandre, caixas de empadas, pastéis ainda quentes, rissóis a saltar de vivos, que isto é uma forma de expressão. 
Dizia eu que em Darling Harbour há gaivotas e na esplanada do Chico não, embora às vezes, raramente, uma ave perdida, vinda do rio longínquo por ali acoste ao entardecer. Mas o entardecer ainda vem distante, e eu vejo uma gaivota branca, não bem uma gaivota, mas antes a Sofia, a chegar ao carro do Alexandre, está ele ainda aqui a abraçar os embrulhos meticulosos do Chico, enquanto ela, alvamente vestida, olhos finos com lâminas, fatia todos os cantos da vizinhança antes de entrar. Alexandre, como Sofia, lamina o ar à porta do café, preparando o avanço para o carro, clandestino. Sem o Correio, tenho todo o tempo para completar a viagem de Alexandre e Sofia, traço no tampo, com o dedo, lavrando em açúcar os caminhos das casas de ambos até este ponto, no presente, e do café para a liberdade, no carro repleno das iguarias gizadas pela mulher do Chico. O Chico, que é fino como uma taça de cristal, terça olhares comigo, mas não precisamos trocar palavras. 
Por falar em taças, esta tarde ainda volto ao café: vejo no balcão uma máquina nova de cerveja, Chimay, que me eleva o espírito, sinto já o sabor da viagem até ao mosteiro trapista. Não havia Chimay no Janus, apenas Reschs, que é de New South Wales e não da Bélgica. Nem o outro lado do mundo é perfeito: podem ter um porto rutilante de ouro polido ao amanhecer, mas não têm Chimay, nem os pastéis de nata do Chico, os que há são imitações. Alexandre e Sofia, bem levam os genuínos na viagem: não sei se chegarão a encontrar gaivotas pantagruélicas, mas encontrar-se-ão, ou assim esperam, um ao outro. E eu, ao entardecer, tenho encontro a sós com a Chimay. Stravinsky dizia do último quarteto de cordas de Beethoven que, na sua simplicidade, era prosaico. Se tem que ser assim, que o seja: apenas uma taça plena de cobre liquefeito, um pôr-do-sol, retratos do passado, quadros do futuro. Prosaico, mas meu, este quarteto.