12.6.14

Sobre o uso do rapé

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, residindo esta semana nos braços de Orchidée, em Positano, na Costa Amailfina, envia-me uma mensagem escrita a tinta safira, saída do aparo profícuo da sua S. T. Dupont Olympio. 

"Meu prezado amigo,

Recorda-se por certo que Calisto Elói (1) trocou o rapé, costume indicativo do homem pensador e estudioso, pelos charutos, pelo motivo de que alguns escritores modernos atribuíam ao amoníaco, parte componente do rapé, o desaparecimento das capacidades retentivas pela acção deletéria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encefálica.

Com a profusão de lojas revivalistas a vender os produtos d'antes, era inevitável que lado a lado com o Musgo Real (que sumptuoso creme de barbear, não concorda o meu amigo?) ressurgisse o rapé. Suspeito, meu caro, que nos corredores de São Bento, o cheiro a alcali é intenso, dada a acção deletéria que se vai tornando notória na massa encefálica de alguns leais parlamentares da Pátria. 

Orchidée, esta Bartolli que preenche as minhas horas, solarengas e luarengas (sabe que partilho com Teolinda (2) a preferência pelo Guimarães(3), por isso perdõe-me certas inovações de linguagem), bem me gaba a minha excelente dentição, para a idade. Devo-o a também aos conselhos de Elói, esse filósofo olvidado, que afirmava que a fumarada do charuto, além de ser purificante e antipútrida, dá aos alvéolos solidez e consistência aos dentes.

Não se tente também o meu amigo, que se considera homem estudioso e pensador, pelo rapé. Uma visita à Casa Havaneza, e uma viagem à Lombardia, farão decerto maravilhas por esse ar macilento que lhe notei durante o almoço no Pabe.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O professor de Magdalen refere-se "A queda de um anjo" de Camilo

(2) Teolinda Gersão, que Andrada trata com esta familiaridade excessiva

(3) João Guimarães Rosa, que José Eustáquio terá encontrado ainda durante uma passagem pelo Brasil, na adolescência