17.9.14

Cartas ao director

J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, envia-me, em papel do Reid’s Palace, uma missiva a tinta sépia, saída do aparo generoso da S. T. Dupont Olympio, caneta que só troca pelo amplexo caloroso da sua Orchidée. 

"Meu muito estimado amigo,

Orchidée encontra-se inconsolável e pediu-me para interceder por ela, por esta via. Diz-me a pérola que ilumina os dias do meu ocaso, ter tido o meu angustiado amigo, nesse hebdomadário que publica na Internet, uma secção de cartas ao director, a que ela chama misteriosamente comentários, e que por algum capricho incompreensível, como são sem excepção os seus, terá decidido encerrá-la sem dar explicações aos três leitores que ainda têm a generosidade, direi mesmo a complacência, de o ler.

Pois, se até Agustina, meu caro, até Agustina, enquanto directora d’O Primeiro de Janeiro manteve tal secção, porque carga d’água, terá optado por calar, sim calar, a voz dos leitores, evitar o contraditório, cercear opiniões mais ajuizadas até que, dizem-me, as das suas croniquetas? Que diriam Camilo, Oliveira (1), Antero, Eça, todos escribas d’O Primeiro de Janeiro, antes de Maria Agustina como terá percebido, todos polemistas de verve aberta e verbo rápido, e todos apreciadores,  decerto, da leitura de uma boa carta ao director, nunca lhes minguando a pena ou o bordão para a volta do correio?

Diz Orchidée, este anjo que transforma os meus dias em noites e as noites em dias, andar ela a esboçar há vários dias, nai, semanas, uma missiva para enviar  à sua gazeta, e eis senão quando o meu queridíssimo amigo, como ela diria e cito (sic) se corta como gente grande, e obriga a missiva a ficar na gaveta, e à minha orquídea, inconsolável nos meus braços.

Ora faça-me então o obséquio de reservar, nesse objecto electrónico onde aparentemente arquiva a agenda, um espaço generoso para repastarmos no Pabe, na próxima semana, quando estarei de regresso a Olissipo. Quem sabe se almoçar finalmente como manda a lei, não lhe trará a luz que se lhe escurece com tanta leitura nocturna de Schopenhauer, Kierkegaard e Cioran. E até, com o auxílio daquele Hennessy da minha garrafa guardada, retomar isso das cartas ao director. 

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Oliveira Martins, e não Manuel de Oliveira, como se poderia pensar, dado o contexto.