20.9.14

Vénus de ambrósia

Recebo de José Eustáquio de Andrada, anteriormente professor de Literatura Portuguesa em Oxford e actualmente tutor a título perpétuo de Orchidée, uma mensagem manuscrita em papel com o timbre do Mercer Hotel, em Barcelona.

"Meu estimado amigo,

Não sei se saberá, ou se o assunto lhe desperta sequer vago interesse, que o meu saudoso colega Isaías(1) leu pela primeira vez o Dr. Jivago durante a lua de mel, quando aproveitou também para visitar o Bóris(2). Suponho que terá sido uma época tão inesquecível para o magnífico orador que o que passou à posteridade foi a notícia das suas leituras, não a dos seus amplexos.

Não somos todos, é bem certo, os que decidimos contrair matrimónio aos 47 anos, e menos ainda os que optamos por ir passar esses tempos de aconchego a um local tão desaconchegado como Moscovo. Talvez fosse esta a secreta razão que levou a rainha a fazê-lo cavaleiro do império britânico, Sir Isaías, não tanto por ele mas mais para dar algum motivo de alegria à noiva, a pobre Aline, que de pobre, verdade seja dita, nada tinha, herdeira que era de alguns poços de petróleo e de um ou outro banco.

Estou em Barcelona, onde vim porque Artur(3) me ligou de lágrimas nos olhos e voz embargada, para consultas por causa do aborrecimento do referendo. A minha Orchidée, esta estrela que me aponta o caminho para a eternidade, tem-se desvelado a cuidar de mim, a ponto tal que, não sendo eu homem já em idade para uma lua de mel, tenho chamado a esta viagem a minha vénus de ambrósia. Não me alongarei em mais pormenores, como poderá decerto entender. O pundonor assim o obriga.

Conta-me Orchidée que já reabriu a secção de cartas ao director no seu hebdomadário, o que lhe despertou um profundo sentimento de gratidão para comigo, seu tutor de literaturas e filosofias, pelos conselhos que em boa hora lhe fiz chegar. Fala-me ela, no entanto, em voz comiserada,  do tom melancólico das suas prosas, das irrelevância dos temas, de quanto lhes falta colorido, animação nas palavras da minha esmeralda, de quão sorumbático lhe parece o meu amigo. Banhos de água fria, meu caro, banhos de água fria. Não há nada que não se resolva com sobreabundante água fria, logo pela manhã, antes de atacar o seu porridge. Vá por mim, vá por mim.

Isso e a nossa perdiz de escabeche, que aguardará por nós na próxima semana, não está decerto esquecido o meu amigo. Posso pedir aqui a Orchidée, este rio onde os meus olhos ganham luz, para lhe enviar uma destas mensagens de poucas palavras, como o meu amigo, das do telefone móvel, para lhe fazer lembrar a data. Sei que ela muito o aprecia e não permitiria que essa sua cabeça de Suão o deixasse ficar mal.

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada"

(1) O ilustre Andrada refere-se a Isaiah Berlin, filósofo, historiador das ideias e professor de Orford.
(2) Bóris Pasternak.
(3) Artur Mas i Gavarró, presidente do Governo Regional da Catalunha.