5.10.14

De Alcochete a Peramanca, uma viagem pela teologia etílica

I.

Borrachas, borrachões assinalados,
Que de Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca d'antes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que se permite a gente branca,
Em Évora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II.

Também as bebedices mui famosas
D'aqueles que andaram esgotando
O império de Baco, e as saborosas
Águas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valorosas
Se vão das leis do reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.

(...)


Deste modo glosavam quatro estudantes de Évora, por volta de 1589 o primeiro canto de Os Lusíadas e o editor da obra, Francisco Soares Toscano, descreve assim a sua génese, numa história que verte luz às catadupas sobre a vida e os tempos dos teólogos aprendizes por esses tempos.

Esta obra da conversão do primeiro canto do poema de Luiz de Camões se fez no ano de 1589, para a qual concorreram quatro pessoas, a saber: o Dr. Manoel do Vale, deputado da Santa Inquisição, que compôs o livro dos Salmos em latim, que agora imprimiu: outro foi Bartolomeu Varela, natural de Viana, junto a Évora, o qual faleceu, que era irmão de Diogo Pereira, que foi este ano às Cortes, que El-rei D. Filipe II fez em Lisboa, por Procurador desta cidade de Évora. Foi Bartolomeu Varela clérigo e grandíssimo poeta. O terceiro foi Luiz Mendes de Vasconcelos, criado do Arcebispo D. Teotónio; o qual posto que não era poeta, se achou ao fazer da obra; e só fez um verso, que é o ultimo da oitava 17; porque estando eles suspensos no cuidado de completarem a dita oitava e parados no verso que diz:

Porque este é o que aguenta a velha idade, acudiu o dito Luiz Mendes, concluindo:
Desterrando a água-pé d'esta cidade.

O quarto e principal autor foi o Licenciado Manoel Luiz, Bacharel; e este ano de 1619 vive com o Priorado de Terena. Este foi o promovedor desta obra, e a fez quase toda, ou o melhor dela.

Quando a fizeram eram então todos teólogos; e às tardes, acabado o estudo, saiam pela porta de Machede, e assentados num ferragial, iam traduzindo para a bebedice as tais oitavas de Camões, fingindo uma embarcação de Lisboa para Évora, como Camões a de Portugal para a India Oriental; e compuseram a tal obra dentro em dois meses, no cabo dos quais saíram com ela: sendo que já os estudantes suspeitavam de alguma aplicação (posto que não soubessem de certo o que era) pelos verem ir todas as tardes para fora dos muros, e comunicarem seus papéis, sem darem conta disso a ninguém.

Finalmente, saída a obra, foi muito festejada e estimada de todos; e lendo-a o Padre Ferrer, castelhano (varão doutíssimo da Companhia, do qual o Dr. Manoel do Vale traz uma carta no seu livro) e falando-se nela, costumava dizer, que era a melhor obra que nunca saíra nem ele vira, se não fosse tão suja.

Depois, como se divulgou, cada um a quis emendar como entendia, donde vem andarem hoje as copias com tanta diversidade de leituras. Porém eu, esta que aqui vai, a trasladei do próprio original e letra de Bartolomeu Varela, que está em poder do Chantre da Sé desta cidade, Manoel Severim de Faria, que a houve do dito Varela, e lhe fiz algumas cotas para inteligência da obra.

Isto me parece basta para se saber o como esta obra se fez. E eu Francisco Soares Toscano o fiz aos 10 de Janeiro de 1619.