12.10.14

O café do pão de Deus

É por causa da missa que não há lugar para estacionar. 

Ao lado do passeio já não consigo, o parque, pequeno, cheio, com tanto terreno livre e os paisagistas da câmara tiveram que liliputizar, apenas encontro no largo, invento um rectângulo no chão, fico a rezar para que nenhum autocarro precise passar pelo espaço estreito. Os fiéis anteciparam-se, devia ter vindo antes deles, ou então percorrido o caminho a pé, afinal não chega a um quilómetro, mas a chuva, a chuva lava as virtudes, intensifica as fraquezas, e uma das minhas é a preguiça domingueira. 

Diria Kierkegaard sobre os estágios da vida do homem, que há os que se levantam de manhã para servir a Deus, e muitos dos que vão à missa vivem essa vida religiosa; há os que se levantam para bem dos outros, como o Chico, que me ocorre dizer, vive uma vida de serviço, ética; e há os de vida básica, como eu, que apreciam um café não muito cheio, se faz favor, e um pastel de nata que pode vir sem canela nem açúcar em pó, que ao domingo se preocupam apenas com o nível zero da sobrevivência, algum prazer, vá, desligam o cérebro, ligam o sistema autónomo de navegação, coisa futurista saída da cabeça de algum Elon Musk que em vez de carros, produzisse humanos.

É quase hora de almoço, o êxodo começou, mas encontro o Correio da Manhã numa mesa, a revista de domingo noutra, e o Paulo e o Alberto, ao balcão, cada com sua mini. Olho para os pães de Deus do Chico, ao lado das minis e valha-nos Deus, precisamente, que aspecto divino, só que não posso comê-los antes de almoço, tiram-me o apetite para o cozido, e antes de atacá-lo há que estar com o estômago dominical em estado de pureza absoluta. 

O Paulo e o Alberto, com a quarta mini cada um terminada, a caminho da quinta, não têm cozido à espera, ou se calhar têm, mas estão na idade em que minis e cozidos não são mutuamente exclusivos. E eis que entre minis se sente o perfume no ar, ainda longe se percebe, o perfume viaja mais depressa que a luz. A Vitória, namorada de Paulo, desliza, felina, até ele, enlaça-o, beijo de tentação. Alberto bebe um gole. Por puro fascínio continuo a olhar, Vitória depõe um beijo na face de Alberto, ele já sem mini, a boca dela tão perto, tão perto da dele, quase tangente, quase secante. Paulo sacia a seca com outro gole.

O Chico, dança atrás do balcão, discípulo da ética de Kierkegaard, para elevação dos outros, eu, hedonista, já bebi o café, penso no cozido, vou levar uns pastéis de nata para depois. Necessidades primárias, vida básica. Vitória leva uma caixa de pães de Deus, numa mão, Paulo na outra. Alberto segue-os de perto. O Chico chama-me, com eles já longe, e diz-me, casualmente: partilham o pão de Deus.

Não me detenho a pensar no que Søren diria, qual o estágio a que corresponde tal partilha. Suspeito, mas é apenas uma hipótese, que mesmo sendo pão de Deus, não será o religioso. A mulher do Chico vem entregar-me os pastéis, ela sabe que são para depois do cozido, dá-me dois beijos, diz-me: vai em paz e que o Senhor te acompanhe. Eu imito a dança do Chico e vou, sim, vou em paz.