24.11.14

Uma viagem de outono-inverno

Em Outubro de 1705, quando Bach iniciou a viagem para Lubeck, nevava. Nada que demovesse o jovem compositor, então com vinte anos, de se meter a um caminho de quatrocentos quilómetros, a pé, para ouvir Dieterich Buxtehude, o maior organista da época, de que apenas conhecia a fama e algumas partituras, laboriosamente copiadas à mão. Pediu licença sem vencimento por um mês, e esqueceu-se, ou não sabia, que os mais completos concertos do mestre, com música nova, seriam em Dezembro, nas semanas que precediam o Natal. O dilema é imaginável: se regressasse, poderia nunca mais ter segunda oportunidade de ouvir Buxtehude, então com sessenta e oito anos. Se ficasse, provavelmente perderia o seu próprio emprego de organista em Anstadt. Optou por ficar: foi tal o fascínio, que voltaria apenas em Fevereiro, três meses depois de expirada a licença. Conservou o emprego, mas não se livrou de uma reprimenda por escrito. A música, essa, nunca mais foi a mesma. Os oitocentos quilómetros de viagem a pé de Bach levaram-nos a modificar o estilo, a ponto de receber uma admoestação dos patrões, entre outras queixas, pelas estranhas variações introduzidas no coro. Disse Cioran: Se há alguém que deve tudo a Bach, é Deus. Nunca saberemos que parte da dívida se deve a essa viagem. Mas é certamente uma porção divina.