16.11.14

Esse mal da melancolia

José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, faz-me chegar uma mensagem escrita a tinta safira, saída do aparo invicto da sua S. T. Dupont Olympio.

"Meu prezado correspondente e amigo,

Diz-me Orchidée, este Sol que ilumina os meus dias e transforma as minhas madrugadas em auroras boreais, que o meu muito estimado amigo tem, nesse hebdomadário que parece insistir em publicar na Internet,  por um lado, mantido uma presença pouco assídua, por outro que o que escassamente escreve, lhe parece de uma inconcebível melancolia e finalmente, que voltou a fechar a secção de cartas ao director.

Sobre esta última parte, estamos conversados, não ouvirá uma palavra, saberá o meu estimado que nunca, em leito meu, as mesmas águas correm duas vezes. Sobre a assiduidade, recordo que, aquando da penúltima vez que estivemos no Pabe, o meu amigo se atrasou para lá de dois minutos. Depois disso, não me assombra, deveras, a sua inconstância no pasquim, digo, na sua folha internáutica, se me perdoa o neologismo. Saberá o caríssimo que as minhas leituras de Guimarães (1) me levam por vezes a estas ousadias linguísticas.

Agora, a melancolia, meu caro, a melancolia é um caso que merece análise. Burton (2), como não ignorará decerto, categorizou a melancolia em três tipos: a do cérebro, a do corpo inteiro e a hipocondríaca. Acho que o meu amigo padece de todas, mas há uma em especial, aquela a que o erudito Avicena chamou ilishi que diria ser a dominante. Burton inclui ilishi, a melancolia do amor, na categoria das do cérebro. Os sintomas são, diz o sábio persa,  “os olhos vagos, secura, sorrir para si próprio como se tivesse visto ou ouvido algum objecto deleitável.” Tudo isto são sinais que consigo identificar no meu amigo, em particular esse semblante vago, que, cito ainda, “olha para dentro”. Diz-me Orchidée que o encontrou engelhado, o que mais confirma ilishi: os que sofrem do mal de amor “definham, parecem doentes, tomam-se de cuidados, suspiram.” Pois definha, meu amigo, definha.

Passe cá por casa no próximo sábado para alimentarmos o definhamento. Deixe de ler essas coisas românticas que lhe atafulham as estantes, essas obras decadentes que mais ninguém tem e ainda menos lê. Como Moulton (3) diz, foi a literatura que criou o amor como o conhecemos. Acabe-se com a literatura e os males de amor desidratam-se, logo se finam os cuidados e os suspiros. E aquele Hennessy que bem conhece, há-de servir-lhe de bálsamo. Se não servir, também não sei que mais o fará.

Deste que o estima e considera.

J. E. de Andrada"

(1) Trata-se de Guimarães Rosa, de quem J. E. de Andrada é manifesto admirador.
(2) O douto Andrada refere-se a Robert Burton que publicou em 1621 o seu magnífico tratado, The Anatomy of Melancholy.
(3) J. E. de Andrada fala de Ian Frederick Moulton, autor de Love in Print in the Sixteenth Century.