30.12.14

Antes da grande noite na Grande Maçã

Recebo de José Eustáquio de Andrada, professor de literatura portuguesa, em Oxford, actualmente retirado nos braços da capitosa Orchidée, uma mensagem em cursivo ornamentado, a tinta azul safira, onde reconheço o perfume da sua musa.

Meu estimado amigo,

Quando esta lhe chegar às mãos, encontrar-me-ei com a minha doce Orchidée, chez Pierre (1). Frio por frio, prefiro o frio que é quente, como este da Grande Maçã. Já o meu prezado, prefere o frio que é frio, como o de Lisboa. 

Eu diria que desde que se decidiu a anunciar Urbi et Orbi a sua conversão a esse tenebroso acordo ortográfico de 1990, merece que surjam estalactites de gelo nos tectos dessas bibliotecas onde arruína os seus melhores dias. 

Como é que um homem da sua estatura (Orchidée aqui ao meu lado mostra de forma veemente a sua concordância com estas minhas admoestações que soam ríspidas mas são tingidas pela verdade mais pura) se verga assim à sombra de Houaiss (2) é, para mim, um mistério maior que o da estrada de Sintra. 

Palavras minhas que venha a incluir aí nesse seu hebdomadário, muito grato lhe ficaria se mantivesse a ortografia original. Quando citar Agustina ou Herberto, como o meu amigo tanto gosta de fazer, irá atrever-se, qual amanuense munido de borracha de tinta, a alterar os vocábulos que caíram sob o machete ímpio de Houaiss e Malaca (3)? Decerto que não, decerto que não.

E depois de tal desmande, ainda há quem leia o que por aí publica, exceptuando, incompreensivelmente Orchidée, que parece não perder uma linha do seu pasquim? Desde a sua rendição à filosofia redutora houaissiana, meu caro, causa-me mais interrogações que afirmações.

Orchidée pede-me encarecidamente, e quem sou eu, oh, quem sou eu, para negar tal pedido a esta lira que enche de melodias cada uma das minhas horas tardias, que envie aos seus leitores os votos de um rutilante Ano Novo, tão faiscante como o diamante que ela ora ostenta no dedo, recordação do pequeno almoço de hoje na Tiffany. Ainda afirma Orchidée, contudo, que eu sou melhor amigo dela que o dito diamante (4).

E já que a porta foi assim aberta, transmita idênticos votos, da minha parte, a todos os leitores a quem martiriza com a sua depressiva prosa e o seu desusado e caduco romantismo.

De ambos receba, para si, um abraço entregue com força telúrica. E não leve muito a sério o que acima digo: os tempos prestam-se a estes chistes, que é tudo o que de sadio nos vai restando ainda.

Deste que muito o estima e considera
J. E. de Andrada


(1) O ilustre Andrada refere-se a The Pierre Hotel, em Nova Iorque, como é evidente.
(2) Para J. E. de Andrada, é a António Houaiss que deve ser assacada a responsabilidade pelo acordo de 1990. Eu manterei a minha equidistância face a tal polémica.
(3) Refere-se Andrada a Malaca Casteleiro, outro dos pais fundadores do acordo ortográfico.
(4) É lendária a subtileza das piadas de José Eustáquio.