21.12.14

Habanera

Recebo de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa no Magdalen College, em Oxford, uma mensagem escrita, em letra cuidada, a tinta sépia, fotografada por Orchidée, essa luz que lhe ilumina o ocaso adiado, e enviada por Snapchat. Cito-a de memória, portanto.

Meu estimado amigo,

Tive que me deslocar inesperadamente aqui a Havana: nunca poderia recusar um pedido do Raul, que me escreveu com lacrimejante e desesperada caneta. Estava o infausto inteiramente desmagnetizado com esta coisa com os americanos: nem sabia por onde começar as conversações. Tenho passado os dias cerrado em reuniões sem fim, sem tempo sequer para cheirar os olores da minha flor. Tirarei a devida desforra quando regressar a Olimpo, digo Olísipo.

Diz-me Orchidée que o meu caríssimo escreveu lá nesse seu pasquim nas internetes que "entrou em reflexão". Em reflexão, diz? Homem, deixe-se disso! Em reflexão entram certas figuras vetustas quando querem gerar mistério em torno do facto de irem, como toda a gente já sabe que vão, ser candidatos presidenciais. Ora o meu amigo, ainda a meio caminho da vetustez, tem lá algo em que reflectir?

Acrescenta ela que refere o estimado que ou lê ou reflecte? Já se vê habitante de alguma sala oval como o W, que ou andava ou mascava pastilha elástica? O cérebro humano tem duas metades – em teoria, uma é para as coisas reflectidas e a outra, para as irreflectidas. Faça uso dos miolos todos, que é para isso que Deus infinitamente misericordioso lá os colocou!

Se ainda não tem onde ir passar o Natal, e quase seria capaz de apostar que com essa sua cabeça de romântico em permanente demanda da infelicidade, nem sequer se lembrou em que época estamos, apareça lá por casa no dia vinte e quatro. A Orchidée está aqui a agitar em delírio as pulseiras, querendo dizer que há por lá lugar para si, ela reserva a sua cadeira preferida à mesa.

L'amour est un oiseau rebelle (1), bem sabemos. Mas ao menos nesta altura, desterre o pássaro para a gaiola, deixe-se de reflexões, saia dessas bibliotecas em que habita, apanhe o sol todo que conseguir, faça vida de gente, meu amigo. Acima de tudo, não se esqueça da noite de Consoada, ou a Orchidée tornará a sua existência durante algumas hora, e desde já lhe asseguro, para meu precioso gáudio, num inesquecível purgatório.

Deste que muito o preza e considera.

J. E. de Andrada

(1) Refere-se o generoso Andrada à célebre ária, também conhecida como Habanera, da Carmen, de Bizet.