7.12.14

O café dos píncaros

Sabe, quem me conhece, quanto gosto de tomar de manhã o café à sombra da copa de certa árvore, jornal aberto, em precário equilíbrio entre o joelho e a mesa de metal cintilante, a conjecturar sobre as ofertas de compras e as compras por ofertas, a tentar decifrar o mundo pela lente de uma chávena de ébano a escaldar. A árvore de natal do café do Chico é grande, mas não frondosa o suficiente para me abrigar debaixo dela, como a outra, a dos dias de semana, mas basta-me a proximidade, as agulhas artificiais que se vão espetando no pulôver como que a quererem tricotar, elas, a lã de merino.

Todos os anos, o Chico fornece a árvore, a freguesia a decoração. Hoje foi a minha vez, subtraí-me a mim próprio, do pinheiro tailandês que medrou junto à minha janela, uma bola do tamanho de uma laranja, mas da cor do dito pulôver, do tom do vinho maduro que irá acompanhar a perdiz do almoço, encomendada à Dona Alzira da Conceição, com os créditos de muitos anos a estufar as perdizes do senhor Marido António, o segundo depois do falecimento do Marido Xavier, também amante dos cartuchos, num infeliz desastre de caça.  Mas nos olhos de Dona Alzira ainda vive o Marido Xavier, mesmo finado, são felizes os três, ela e os dois maridos e não há perdizes, por Deus, como as da senhora Alzirinha. A minha bola, dizia eu, antes de começar a falar de perdizes, foi colocada ali, onde me sento, sob o olhar de apreço do Chico, que dançava o tango dele com o café que trazia numa mão, dois pastéis de nata na outra, tango dobrado, portanto.

A Joaninha Luz, que é freguesa como eu de domingo e, mais que eu, de outros dias, tem também uma bola para pendurar no pinheiro do café, ei-la na mão, sorriso a prenunciar o espírito da época, é azul, cor de capa de livro de Agustina, a edição mais recente d’A Sibila, é o melhor que sei descrever, não sou bom a falar de cores, azul de fim de tarde, daqueles em que adivinhamos que a lua cheia não demora.

Vem Joaninha Luz, valsando, com o seu pedaço de céu na mão, e deposita-o no pinheiro, um pouco abaixo da estrela, que bem que fica o contraste, azul e ouro. Um raio urgente de sol encontra o globo, cometa e embater no oceano onde flutuará, e no espelho momentâneo que assim se produz, vejo reflectidos os olhos do Adalberto Engrácio, que rodeiam, mais direi, abraçam o fragmento celeste que antes estava nas mãos de Joaninha Luz. É cliente também o Adalberto, e o Chico, que para além de bailador é esperto que nem uma truta, daquelas que nem os mais peritos apontadores de anzóis conseguem apanhar, faz-me de longe sinal, afilando o queixo na direcção do Adalberto. E levanta-se este, suavemente, diria, empurrado pelo gesto distante do Chico, destapa uma bola que trazia numa caixa, linda, uma bola de cor de lua, e fá-la ascender até ao céu que Joaninha acabou de depositar nas agulhas verdes. 

Como se fosse um parteiro a entregar pela primeira vez uma recém-nascido à mãe, assim Adalberto deixa a sua marca de cliente, o seu sinal, o seu coração, percebo-o no olhar dele e de Joaninha, que bebe os seus movimentos desde que ele se levantou. Ali ficam lado a lado, o céu e a lua, azul e prata, Joaninha e Adalberto.

Eu, tenho ainda que passar por casa de Dona Alzira da Conceição e do Marido António para apanhar as perdizes, que vêm quentes, num tacho embrulhado em jornais, atado com um cordel.

— Destape só quando for comer, para estarem nos píncaros, como dizia o Marido Xavier.

aconselhar-me-á Dona Alzira. Nos píncaros, pois claro, as perdizes, estarão nos píncaros, que é onde lhes compete. E enquanto saio acenando ao Chico, lanço ainda um olhar para Joaninha Luz e Adalberto Engrácio, iluminando-se com olhares, cada um em sua mesa. Nos píncaros, ambos, nos píncaros.