22.1.15

Em defesa das leguminosas

Escreve-me José Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa do Magdalen College, em Oxford, uma carta na sua precisa caligrafia lavrada a tinta azul safira, e saída do aparo iridiado da S. T. Dupont Olympio, brilhante nas suas múltiplas e genuínas camadas de laca da China.

“Meu muito prezado amigo,

Chegou-me aos ouvidos que para além dessa sua existência de eremita laico, que lhe dá à cara o ar pálido mais adequado num salão do século XVIII do que na Lisboa chuvosa e fria de dois mil e quinze, agora tem sido avistado – e acredito, porque é um grande amigo comum nosso que mo diz, compungido – a alimentar-se com sucedâneos de comida a sério, coisas com nomes de seitan e tofu, cuidadosamente trabalhadas para parecerem o que não são, nem nunca serão, por mais refogados e estufados em que se vejam embuçados. Impostura há por todo o lado, meu caro, e já nos basta a do espírito com que nos deparamos a cada hora que olhamos para os curadores da res publica: poupemo-nos à hora sagrada da refeição. 

Que se alongasse pelas leguminosas ainda compreendia. Este seu amigo que muito o estima, não dispensa um bom prato de favas na época delas, desde que sejam pequenas e se desfaçam apenas com o olhar, acompanhadas com toucinho frito, estaladiço como nunca comi um bacon em terras de Sua Majestade. Agora favas com seitan? Homessa? Ao meu lado, a dulcíssima Orchidée até se arrepia, sussurrando-me com ar preocupado se não será desta que os seus ossos finalmente se verão à transparência da pele. 

Se quer ser o vate Elmano que insinua lá por esse pasquim que mantém nas internetes, pois que o seja, mas não consta que o Talaya(1) se movesse a fibras de soja. Homem que se quer de espírito também se quer de carne – caso contrário, temos casa sem pilares, sistema solar sem Sol, Andrada sem Orchidée (“credo!”, suspira a meu lado a sublime musa que alonga os meus dias e encurta as minhas noites.)

Apareça por cá ao jantar de sexta: mandarei vir de Negrais um leitão ainda fumegante e estaladiço, que regaremos com aquela magnífica reserva do Dirk (2). 

(Orchidée aplaude em saltos que desafiam a gravidade – uma revelação, não a sabia tão apreciadora de couchonnet.)

E saia, homem, apanhe sol, ou apanhe chuva, ou apanhe a tipóia para Sintra. Em suma, apanhe alguma coisa, qualquer coisa, o que quer que seja.

Deste que muito o considera.

J. E. de Andrada"

1) Refere-se o grande Andrada a João Dias Talaya Sottomaior, panegírico do Séc. XVIII a quem Bocage deitou a sua rede mordaz. 
2) O ilustre Andrada trata assim o não menos ilustre Eduard Dirk Niepoort, actual responsável pela casa Niepoort.