28.1.15

Omeletes calvas

Escreve Eça, n'O Distrito de Évora: Um ministro, por exemplo, abre um jornal: lê o artigo de fundo, boceja; o artigo ataca-o: diz que ele vai levando a pátria ao abismo, que esbanja a fortuna pública, que é amaldiçoado pelas almas honestas, etc.; o ministro boceja; ele ouve aquilo todos os dias, está cansado de escutar e sorri-se, cumprimentando, quando alguém lho vem bradar. Por isso não se altera. Mas passa adiante; a política estrangeira, também boceja; a correspondência do Reino em que o fulminam: boceja; então passa a crónica, lê, lê mais, lê avidamente, dá um pulo, empalidece, dá um grito, esmorece, sufoca-se, passeia furioso: o que viu? Eu sei? Qualquer coisinha: viu-se descrito, com o nariz bicudo e joanetes nos pés; vê a notícia de que no seu último jantar várias pessoas tinham encontrado bichos nos legumes, e outros, cabelos na omelete, pelo que um cavalheiro lhe bradou:
-- Sr. Ministro, eu gosto das omeletes calvas!
Vê-se mais acusado de trazer chinó, e de não lavar a cabeça, e de se deixar espancar pela mulher. Etc. Aquele homem, que o artigo de fundo não abalou, foi fulminado pela própria crónica. Daí, manda imediatamente comprar o cronista; e daí, o cronista manda-se imediatamente vender.