26.2.15

A ronda da noite

Recebo uma encomenda de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa em Oxford, acompanhada por uma missiva em cuidada caligrafia em azul cobalto, esmeradamente desenhada pelo aparo da sua S. T. Dupont Olympio.

"Meu muito estimado e saudoso amigo,

Estas linhas que ora lhe chegam à mão, escrevo-as na Bodleian (1), templo a que dediquei longos dias contemplativos da minha profícua existência. Se a casa de um inglês é o seu castelo, a Bodleian é a minha torre de menagem. Orchidée, esta flor cujas pétalas aromatizam o meu despertar, envia-lhe um ósculo, um apenas, citando Pessanha (2): Quão delicada te osculou num dedo / Com um aljôfar cor de rosa viva!... Ah, a minha orquídea alva e irisada, eflúvio dos dias meus, seda das minhas noites.

O livro do jovem Magueijo (3) fez assinalável sucesso entre os meus confrades, que estão a ponderar seriamente redigir uma resposta à altura, apresentando Portugal visto a partir de Plymouth, onde como sabe, com um bom óculo em dias claros, se avista o cabo de São Vicente (4). Hesitam, neste momento, no título a dar a esse opus magnum: dividem-se entre Tesos quem nem carapaus e Enquanto a senhora gorda cantar (5). Eu sei que são rebuscados, mas não duvido que esses seus dois neurónios serão capazes de os descodificar a contento.

Espero que vá mantendo os céus de Lisboa límpidos e azuis, que por aqui, meu caro, cães e gatos despenham-se das alturas a cada passo. Estaremos de regresso para a semana, e Orchidée já está a planear uma das nossas decantadas rondas da noite, deste sábado a oito dias, para a qual está desde já convidado. Não se trata de contemplação da obra de Rembrandt, nem da leitura declamada do livro homónimo da Maria Agustina (6), posso assegurar-lhe. Mas não aguçarei a sua curiosidade com mais pormenores porque, como diria Pasternak, a surpresa é a maior oferenda que poderemos receber da vida.

Orchidée pede para o avisar que para a ronda da noite, o dress code é fato escuro, camisa negra e gravata rubra. Orchidée recomenda-lhe que leve a Marinella (7) que segue apensa a esta humilde mensagem.

Aceite um abraço deste que muito o considera.

J. E. de Andrada."

(1) A maravilhosa Bodleian Library, em Oxford.
(2) Camilo Pessanha, claro.
(3) Refere-se o professor ao livro do físico português e professor no Imperial College, João Magueijo, Bifes mal passados.
(4) Um chiste do professor, só pode ser.
(5) Referência pouco subtil dos britânicos à dependência portuguesa da vontade germânica. Como é evidente, a senhora gorda é uma Valquíria de uma ópera de Wagner. 
(6) O ilustre Andrada tratava assim Agustina Bessa-Luís, quando se visitavam.