1.2.15

O café que é uma ilha

Oh, que sortudo sou, cantaria o brilhante Lee Clayton. De madrugada, ainda o Sol se passeia em Bondi Beach, enviam-me de Madrid, o País, de Paris, o Mundo, de Nova Iorque, o Tempo. Assim prendado, voam as horas até sair, em passo dolente, rumo ao café do Chico. Coleridge acreditava que todas as letras estavam contidas numa só, na primeira, no Aleph. Eu, acredito que o país, o mundo, o tempo, se contêm neste café, uma ilha no meio da cidade. O Chico, o Crusoé, senhor da ilha, imperador de cem metros quadrados, mestre de cerimónias, discípulo de Apolo, excelso bailarino.

Abraça-me o Chico quando chego, como se me não encontrasse há décadas, ainda que me tivesse visto a semana passada, e a outra. Vem o café quente, aroma de diamante, e vem o pastel de nata, em dose dupla, que ainda é cedo, o domingo é longo, a conversa vasta. Vem o Augusto sentar-se ao pé, e o Luciano, depois a Fernanda, parte do grupo das noitadas de estudo, quando fazíamos os raides aos bolos acabados de sair do forno, ainda a queimar na boca, hoje falamos dessas noites infindáveis e de conversas nas escadarias. Cada um de nós se recorda como ontem, já lá vão tantos dias, transformados, um a um, em anos. É o tempo que nos chega, e parte, sem precisar vir de Nova Iorque. É o tempo que está aqui, tão perto como a chávena e o prato com os pastéis, que já se foram. É o tempo que dança connosco, como o Chico rodopia entre as mesas, distribuindo cafés e sorrisos, colhendo palavras e fragmentos de vida. 

E na mesa do centro, naquela que fica mesmo por baixo da ventoinha de grandes pás, da que tem as luzes, que quando se acendem fazem nascer o Sol à noite, nessa mesa, digo eu, estão o Ricardo e a Laura, também eles compagnons de route desses outros tempos, mas que se encontraram, ou reencontraram tardiamente. E enquanto  na minha mesa se recorda a vida que voou, o Ricardo e a Laura encontram a vida que virá. Olho-os, e vejo que não me veem, nada veem, tirando um ao outro, tantos anos depois, veem-se pela primeira vez. Na ilha que é o café, criaram uma ilha, uma outra. Também eles são sortudos, como cantaria o brilhante Lee Clayton, por estarem ali, um com o outro. Porque a maior felicidade que há é quando todo o mundo se desintegra e fica apenas uma ilha. Não importa onde está o Sol, não importa o que vem de Madrid, de Paris, ou Nova Iorque. Apenas a ilha conta, quem nela está, que seja uma ilha dentro de uma ilha, dentro de uma ilha. Uma ilha matrioska, como aquele boneca que uma vez trouxe porque era pintada à mão, em tons suaves, nada de cores garridas, industriais, atuais. 

Seria capaz de jurar que a ilha do Ricardo e da Laura tem luz própria, luz que cintila em torno deles. Os meus colegas de mesa, e de vida, céticos e racionais, diriam que é o reflexo do Sol na ventoinha por cima, que também é candeeiro. Mas eu, que sou um sortudo, como cantaria o brilhante Lee Clayton, às vezes encontro raios de luz perdidos e, à socapa, guardo-os para mim, catalogo-os na minha coleção. Sei que hoje vou levar estes, quando me for, daqui a pouco. Levo os abraços do Chico, da mulher do Chico, as palavras do Augusto, do Luciano e da Fernanda. E a luz da ilha do Ricardo e da Laura. Afinal, eles não precisam da luz exterior. Os olhares de um para o outro chegam para iluminar o País, o Mundo, o Tempo, que é a ilha. A sua ilha.