19.2.15

Rústicos eruditos

O nosso comum amigo Andrada disparou naquela sua voz agreste de proprietário de vastos prédios rurais, metido a literato, mais rústico que erudito: 

-- Moraes, você que parece ter mais tempo à sua disposição que um Ministro dos Negócios Estrangeiros, é que era bom para escrever naquele pasquim que aqui o nosso amigo J. mantém nas internetes. E além disso, confirme-me lá, você não é homem de paixões, ou é? Não se lhe conhece um alexandrino, um soneto, uma rima que seja. Apostaria este havano supimpa em como não leu um poeta madeirense sequer e na sua estante não constam autores que levam metade dos livros à procura dos tempos perdidos em Sines. Aquilo está é a precisar de gente à antiga, como o meu amigo, homens de rapé e pingalim, de verbo rápido e rédea curta nas emoções. Homens que o são por força da lei divina não se querem apaixonados. Isso, é para as almas a fenecer, os espíritos elevados pairam acima de tais minudências.

Orchidée olhou com comiseração para J. que baixou os olhos com ar compungido, atingido com mortal flecha no seu frágil e sofredor coração. 

-- Mon chou, proferiu a dulcíssima diva, naquela sua voz maviosa de cotovia de Bayreuth, deixe o coração cristalino do J. em paz, que ele tem tido mais que a sua quota de raisons para andar com as emoções assim, tatuadas na sua pálida pele. Le pauvre.

Um misto de agradecimento e ternura pareceu-me perpassar pelos olhos melancólicos de J. enquanto se dirigia a mim.

-- Moraes, pois se o meu amigo, que é homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, quiser agraciar aquele humilde espaço com a sua pluma, será, não recebido com vestais ocultando o sol com chuveiros de pétalas de rosas, que isso não consigo encomendar em tempo útil, mas pelo menos com um cálice daquele Hennessy que sabe que eu guardo especialmente para as suas visitas, aquele que quase nos fez perder o vôo em Frankfurt, e que nos obrigou a correr que nem uns evadidos pelos infindos corredores.

-- Ora vê, tonitruou Andrada, Moraes, aí tem a sua deixa. Não é todos os dias que temos oportunidade de contribuir para a sociedade de forma tão absolutamente inútil. O pasquim do nosso amigo J. que ele muito considera é, que eu saiba, apenas lido aqui por Orchidée, mon amour, e poucos mais que por lá chegam sem dúvida ao engano e rapidamente arrepiam caminho. Com o meu excelso amigo Moraes a prosar por lá, finalmente haverá um motivo para, até eu, by jove, even me, poder, num dia de chuva, encontrar frases que finalmente consiga ler sem sentir o arrepio que o romantismo elisiano me causa.

Os olhos de Orchidée ergueram-se para o céu, em prece que me fez recordar a famosa oração de Santa Teresa de Ávila. O amigo J., por seu lado, parecia-se mais com S. João da Cruz, a redigir os seus poemas no guardanapo, com uma caneta cujo aparo esborratava tinta com a facilidade com que Andrada escorropicha absinto.

E eu, A. de Moraes, homem viajado, investido, e conhecedor do mundo, como diria o martirizado J., atentei no olhar celestial de Orchidée, e por ela, apenas por ela, única leitora conhecida destes editais, escrevi e assino o meu primeiro panfleto para este pasquim de publicação deveras irregular aqui nisto das internetes. Também pelo Hennessy, vá, que foi por minha causa que J. ia perdendo o avião nesse dia, e de certeza perdeu os pulmões pelo caminho, enquanto enrubescia, soprava e bufava, correndo e bradando, num aeroporto onde ninguém o entendia:

-- Sem mim, não. Sem mim, não!