7.2.15

Solidariedade radical

Recebo uma caixa da Kent Haste & Lachter (1), acompanhada por uma carta manuscrita na elaborada caligrafia de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de Literatura Portuguesa no Magdalen College, em Oxford. 

"Meu muito prezado amigo,

O Yanis (2), que como sabe, conheci em 88 em Cambridge, não me tem dado pausa ao telefone. A discrição não me permite adiantar mais, mas o Yanis sabe mais de Economia a dormir que o Wolfgang (3) acordado, e como adicionalmente também é especialista nos arcanos da teoria de jogos, estar como mediador nas conversas entre os dois tem-me obrigado a descurar o que deveria ser a minha ocupação primeira por esta altura: cuidar da minha Orchidée, esta flor que pinta de ouro os meus dias e de platina as minhas noites. 

Ela encontrou-o, a si, naquele evento do hotel, e veio dizer-me que “a sua gravata ausente na camisa imaculadamente branca e de colarinho aberto se destacava muito mais que todos os nós Windsor que por lá peroravam.” Pois o meu estimado amigo agora, num afã neo-helénico recusa também um aconchego ao pescoço? Muito me conta, que o sei com apreço pelas belas sedas. Mas os ventos que vêm do Peloponeso e varrem a Europa, levam a eito também as ties – e não será por acaso que na língua de Sua Majestade, gravata (tie) e empate (tie) sejam palavras homónimas. Estamos em tempo de acabar por fim com as ties, meu amabilíssimo amigo.

Como sabe, ou não sei se saberá, a expressão solidariedade radical (4) que o Yanis usa naquele artigo lá dele, fui eu que o sugeri, estávamos ambos em frente a uma pint, no Eagle Pub, em Cambridge. E falando em solidariedade radical, a Orchidée, que lhe envia o que vai na caixa em apenso, sugere que já que optou por ser tie less, que faça a mudança radical, imite o Yanis com quem ela o acha parecido, e passe também de white collar para blue collar (5). Bem sei que o meu amigo está provido de plena capilaridade, ao contrário do Yanis, e não consigo perceber onde ela vê tal semelhança. 

A solidariedade dela, com o meu beneplácito, vai nesta caixa, sob  a forma de uma camisa azul, semelhante às do Yanis, que ela pede encarecidamente que o meu amigo envergue quando por cá aparecer amanhã à noite, para o nosso combinado jantar grego (aqui ao lado, os gritinhos de alegria dela quase me perfuram os tímpanos – por certo, manifesta o apreço por Païdakia e Bougatsa (6), a ementa du jour).

Agora tenho que interromper esta missiva, que já vai longa: o Wolfgang está furioso por ter perdido um jogo qualquer nas internetes (7) com o Yanis e não me larga o telefone a clamar por vingança. 

Cá o aguardamos amanhã. Apareça com a camisa para fora das calças, como o Yanis, reitera Orchidée, a minha fidelíssima musa, esta luz que ilumina o meu ocaso.

Deste que muito o estima e considera

J. Eustáquio de Andrada"

(1) Alfaiates e camiseiros estabelecidos em Saville Row, Londres.
(2) Yanis Varoufakis, claro, o ministro das Finanças de Grécia, doutorado em Economia, com uma tese sobre o impacto económico das greves industriais em Inglaterra e nos EUA.
(3) Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha, doutorado em Direito, com uma tese sobre o papel dos contabilistas nas empresas de contabilidade.
(4) O ilustre Andrada refere-se ao artigo: Toward a theory of solidarity, que Varoufakis publicou em 2003.
(5) É um chiste do grande Andrada: em terminologia anglo-saxónica, white collar refere-se aos executivos, e blue collar aos trabalhadores fabris. Há aqui uma velada referência de cariz revolucionário que me abstenho de comentar.
(6) Pratos da cozinha grega, obviamente.
(7) Yanis Varoufakis é consultor da Valve Corporation, uma empresa de jogos na Internet: é natural, pois, que aniquile Wolfgang Schäuble numa jogatana noturna no Counter Strike, um dos mais populares da Valve.