17.3.15

Autorretrato com vista para a Acrópole

Recebo uma carta na caligrafia treinada de J. Eustáquio de Andrada, letras azuis traçadas pelo aparo da sua ST Dupont Olympio, conjuntamente com uma fotografia de duas mulheres sorridentes, com o Parténon em fundo. 

“Meu muito estimado amigo,

Dizem-me que, por aí, as chuvas estão a chegar, mas aqui, o sol brilha frondosamente, empalidecido embora pelo sorriso de Orchidée, esta flor que me ilumina a alma no seu ocaso, que é também um apogeu, por motivo d’ela. Estamos nesta cidade onde todas as casas têm varandas abertas para a vida, a pedido do Alexis e do Yanis. Os motivos do convite, como intuirá, são reservados, mas pela amizade que me une a Yanis, desde que ele estava em Cambridge e eu em Oxford e nos cruzávamos no Eagle Pub, nunca poderia recusar passar aqui esta pré-primavera europeia.

Ontem estivemos a jantar em casa do Yanis, aquela que o meu amigo já conhecerá decerto das páginas de Paris Match. Orchidée e Danae tiraram um autorretrato (a que elas chamaram selfie, vá-se lá saber porquê, uma vez que são duas na película digital). Orchidée pediu logo a Danae para imprimir para enviar para o pauvre, pauvre, J. como ela lhe chama. A comiseração que esta doçura tem por si, comove-me, deveras. Empatia pela miséria em que encontra sempre a sua alma, acredito que seja a razão. Orchidée comove-se com os bebés que choram desabridamente, com os cães que uivam ao anoitecer e aparentemente, com as causas perdidas, como o meu prezado amigo.

Por falar em comoção, eu e o Yanis partilhamos esta paixão pela Austrália, e não ignorará o meu amigo que ele tem também nacionalidade australiana. Estamos a pensar voar, em Julho, até Darling Harbour acompanhados pelas nossas divas, as nossas darlings (a piada é algo seca, mas todos nos rimos dela, ontem à noite). Arranje o meu amigo companhia e ainda lhe estendemos o convite. À pendura é que não, nem sequer com o olhar suplicante que Orchidée me endereça agora.

Sabe o meu amigo, o problema da reportagem da revista, toda a exaltação em torno dela, não tem que ver com o retrato com o Parténon em fundo, ou o Yanis ao piano. O problema é que Yanis e Danae são modernos, bem-sucedidos, cosmopolitas, que não precisaram da política nem de favores alheios para chegar àquele ar de felicidade com que por lá aparecem e que eu posso comprovar. Yanis e Danae representam, de certa maneira, o ideal europeu. A união harmoniosa entre a ciência (sim, a Economia é uma ciência, the dismal science, como lhe chamava Carlyle) e a arte, entre a Europa e os outros continentes todos, onde eles, juntos ou em separado, já habitaram. Que seja um casal grego a mostrar à Europa a personificação da verdadeira aspiração de modo de vida europeu, isso é que é insuportável em Paris, Londres ou Berlim. Da nossa Lisboa, ainda tão fin-de-siècle, já nem falo.

Vá então tratando de arranjar sociedade para aquilo lá da Austrália. O tempo foge: para fazer a reserva, tem que saber o nome que vai indicar para o outro bilhete. Não deixe também isso da parceria para a última hora.

Receba um abraço deste que muito o considera (e daquela que agora junta o autorretrato, sempre murmurando, pauvre, pauvre, J.)

J. E. de Andrada”