29.3.15

O café das horas encontradas

Chego cedo ao café do Chico, mas é já tarde, roubaram a hora, sem que eu o quisesse ou ela o desejasse. Mas, raptada, sei que ma devolverão, a troco de dias e meses, sem contratos que envolvam entregas da minha alma, em prazo a definir. O Chico, que é poeta e dançarino, diz que a hora não foi roubada: saiu para bailar uma milonga com o céu azul, e voltará quando ele se retirar para outro hemisfério, quem sabe o de Gardel, exausta e feliz. Pois seja. Surge o café nas mãos do Chico, naquela magia dele que ninguém sabe replicar, menos ainda explicar, não uma chávena, mas duas, que o professor Vilareal também bebe, enquanto inicia a sua dissertação sobre a dissertação. Que bem disserta, que só lhe posso acenar razão, quando me dá conta da sua estranheza, pois — dizia ele — que já foi vasculhar o catálogo da biblioteca e a tese que originou o livro tão falado, que a jornalista diz que afinal foi feito por encomenda, que foi um catedrático a escrever, fluente que é na língua de Racine e Montaigne, e conhecedor das temáticas da perda de confiança no mundo: pergunta o professor se alguém terá perguntado a Astrid, que foi orientadora da tese, o que acha ela da teoria de que o trabalho onde pôs o nome — e que como é o seu papel, deve ter acompanhado ao pormenor — afinal não foi feito por quem se sentava à sua frente nas discussões de temas e referências, e que assim ela também está envolvida numa intriga internacional, mas eu não tenho resposta, tenho só uma opinião, mas uma opinião não conta, pois não? Diz o professor que não viu tal pergunta na notícia, repetida por tantos jornais, e eu respondo que também não, e o Chico acena que ele ainda menos. O Chico é dançarino de passos porteños, mas como Sá de Miranda, umas vezes s’espanta, outras s’avergonha, com as danças com a verdade que vê. Eu, menos idealista que o dono do café, menos me admiro que ele, e me ocorre é a nostalgia da hora que se foi, dançando. A mulher do Chico traz pastéis de nata, daqueles dela, da receita recebida em herança da mãe, que são mais divinais e mais estaladiços que os da antiga fábrica belenense. E perante tais porções de paraíso, até o professor Vilareal ganha a confiança no mundo, se bem que apenas pelos minutos que leva a comê-los. E esses minutos, afinal, valem a hora que se foi, mas voltará, em tempo, de outro hemisfério. Antes de me ir, encomendo mais pastéis, para levar comigo. Raciocínio de lógica imbatível: se um pastel me faz recuperar uma hora, meia dúzia dar-me-ão mais um quarto de dia. Despeço-me do professor, do Chico e da mulher, e saio com as minhas horas encontradas na mão. Não ganhei o dia mas ganhei uma questão interessante, e umas horas adicionais para viagens de exploração. Hoje é um dia bom.