20.3.15

O estranho caso da chave da biblioteca de Alexandria

Lê-se nas memórias de Balião, o Novo, que quando a biblioteca de Alexandria foi mandada incendiar por ordem de Omar, a chave do cofre onde se guardava o Livro de Todos os Livros, aquele que foi ditado pelo Deus dos Deuses, foi levada em fuga por Balião, o Antigo, para não cair nas mãos do esbirros do Sultão. 

Longos dias viveu Balião, tendo a chave legado a seu filho, antes de entregar a alma para ser transportada no carro de fogo, para as paragens de Sempre. O cofre, que só se abrirá com tal chave, permanece nas catacumbas do Louvre, guardado à vista por um membro dos Chevaliers de Sangreal. Diz a lenda, mas só o Deus dos Deuses é que sabe, que quem abrir o cofre com a chave será senhor do tempo, mestre da Eternidade, terá o poder de dar vida aos que morreram e morte aos que vivem. Será senhor e escravo, porque o poder absoluto é a mais profunda das servidões.

Longe do Louvre, perto do Tejo, Jorge de Burgos, bibliotecário cego, guarda a chave do cofre. A chave foi-lhe confiada numa noite longínqua, por uma mãe que a soluçar lhe entregou uma criança dizendo: A ti confio a minha vida e a chave do Universo. Cuida da minha vida, e o Universo por ti olhará. 

Foi há muitas voltas da Terra, mas Jorge recorda essa noite como a de ontem. Recorda-a enquanto pelos seus olhos passam as memórias de viagens infindas em busca de livros e sabedoria, em busca do zero e do infinito, em busca das origens do futuros e das portas do presente. Sente Jorge, nesta noite de chuva que a chave o chama. Levanta-se, afasta a estante que gira silenciosamente, desvendando um cofre de bronze. 

No cofre, só a chave salva por Balião das mãos de Omar, o incendiário. Jorge roda-a nas mãos e, de repente, sente o tempo a escoar-se, a urgir. Não pode adiar mais a passagem da chave a quem ela pertence, por direito dos Deuses. A passagem ao único descendente vivo da linhagem de Balião, o Antigo. O descendente que lhe foi entregue há noites sem fim por uma mãe em desespero de medo, a quem ele ama como pai, a quem irá agora passar o destino dos tempos que virão.

Senta-se, agarra com ambas as mãos a chave, porque sabe, sabe-o bem, que serão estes os últimos minutos em que as suas mãos sentirão o frio e milenar metal. 

Junta Jorge de Burgos os seus derradeiros fiapos de voz e chama:

— Maria...

[Homenagem às autoras da irresistível história que se inicia aqui.]