8.3.15

O problema das mulheres (e dos homens também)

Trovejava o ilustre J. Eustáquio de Andrada: 

-- Oh Moraes, você que já passou também algum tempo a lamber papel, sabe que naquelas coisas da ciência, o que conta não são os grandes avanços, são os pequenos, pois não é verdade? Não temos que mudar o mundo de uma vez só, apenas em pequenos passos, como lhes chamava o Popper. Você, que já leu o Popper, confirma, claro?

Assenti, acenando com a cabeça e notei também o nosso amigo J. que, agarrado àquele seu telefone esperto (como ele lhe chama) balançava gravemente a fronte, no movimento gracioso de um bote na doca. Orchidée, mais distante, olhava para o telefone dela como se de um espelho se tratasse, sorrindo, certamente como Marguerite, de se voir si belle en ce miroir. De vez em quando soltava um trinado em forma de risada. 

-- Mas, oh Moraes, estas gentes modernas acham que a vida tem que ser mudada toda de uma penada: salte lá o Euromilhões, ou engravidem de um romance, e tudo se resolve em ritmo presto, como numa sonata de Paganini. Não pode ser, as engrenagens do mundo não giram assim -- prosseguia o grande Andrada.

As lágrimas assomavam aos olhos de Orchidée, que continha as gargalhadas, enquanto J. continuava a acenar automaticamente com a cabeça. Parecia exercitar ritmicamente os músculos do pescoço, ou preparar alguma das asanas lá dele. Com a língua ao canto da boca, J. assestou uma dedada decisiva no seu telefone – e quase de imediato, decerto por coincidência, Orchidée deu um gracioso salto na cadeira, enquanto de seus belos e cerrados lábios saia apenas uma abafada e gargalhante exclamação.

Andrada atirou os braços ao ar, em sinal de desistência.

-- A juventude recreia-se. Mas, oh Moraes, e não acha você que o problema das gentes, é acharem que querem mudar tudo, quando afinal não querem senão mudar umas minudências nas suas vidas? Olhe, não vamos mais longe: Orchidée, que ali vê, aquela flor que enche de sol o meu ocaso, adora abraços. Pois não os adoram as mulheres todas? E quantos dos seus colegas, desses que se sentam nas cadeiras de pele de vitela albina italiana a criar produtos estruturados como mestres do Universo, oh Moraes, colhem as suas flores aos braçados? 

Pois que eu não sabia, mas desenhei casualmente uma função a tender para zero no papel à minha frente.

-- E as flores, quantas se enrolam, quais heras murmurantes, trepando em direção ao céu, aos seus colegas, senhores do mundo e arredores? Oh, Moraes?

Pois que não estou lá para assistir, mas escrevi uma percentagem com muitos zeros do lado direito da vírgula. Andrada concordou.

-- O problema dos homens, oh Moraes, é acharem que as mulheres querem o Mundo. E o problema das mulheres, é acharem que os homens querem o Universo. E todos querem é o mesmo, oh Moraes. Todos querem é amor. Esta coisa do amor não passa de moda com a idade, mas as gentes acham que sim, que isso das flores se enlearem como heras é coisa dos vintes, mas já não é precisa aos trintas, menos ainda aos entas todos, ad aeternum. 

-- É um problema, um verdadeiro problema, oh Andrada – confirmei.

Andrada olhou com uma ternura milenar para Orchidée: 

-- Minha Orchidinha, viens dans mes bras -- tonitruou, enleando a sua orquídea, como uma hera, num formidável amplexo. 

Do telefone de J. elevaram-se umas vozes desconhecidas a cantar uma canção que bem conheço: all you need is love, love is all you need. 

-- Como diria o grande Camilo, o amor tem céus e resplendores que banham de luz as mais tristes almas, oh Moares -- proferiu J., ponderosamente. E acrescentou o imprevisível editor deste hebdomadário:

-- Um ferro, isto do Spotify não ter as músicas originais dos Beatles. Temos que nos contentar com estas bandas de cover, já viu? Assim, nunca as novas gerações perceberão desta coisa dos males de amor, como nós percebemos. Um problema, oh Moraes, um problema.

-- Um problema, oh J., um verdadeiro problema – confirmei, encolhendo os ombros.