26.4.15

A felicidade por contágio, no café, ao domingo

Há também o café da Cláudia, acho que ainda não tinha falado nele. Se o do Chico é o dos salgados, o da Cláudia é dos doces: do folhado como um transatlântico, do pão de Deus como uma nave povoadora, do croissant que pede meças a uma broa de Seia. Tanta tentação no balcão. Sentado apenas com o café, não vi o Correio da Manhã, não levei o Público, estive só a observar o Henrique Sá Pessoa, lá bem alto, na televisão da parede, a massajar umas beringelas como se fossem clientes de SPA em tratamento de reposição de beleza. E beleza, verdade se diga, daquela da melhor espécie, a serena, tem ainda a Florinda, que o Manico —  que por ela se perdeu d’amores —  chama Flor Linda, aparecida, por encantamento, na mesa em frente, enquanto os meus olhos deambulavam algures. E assim descobri que a adoração que o Manico tem por Flor Linda foi herdada pelo filho de ambos, que segurava a cara enternecida da mãe entre as mãos, como já vi o pai fazer, e a da filha, que lhe tinha tecido um colar feito de braços. Não precisei dos jornais, deixei o Sá Pessoa sozinho a espalhar óleos essenciais sobre as beringelas, fiquei reduzido à minha condição anónima de espetador, quase não respirando para não perturbar o quadro, deixando que o tempo parasse, e percebendo que a felicidade, essa ilusão que às vezes buscamos debalde entre o nascer e o desaparecer do Sol, por vezes se acha apenas por contágio da que está ali, mesmo ali, a desenrolar-se à beira dos nossos olhos.