22.4.15

A sabedoria ao alcance da juventude

Nenhum homem acredita cegamente em nenhum outro homem. Pode-se acreditar numa ideia, mas não num homem, não com a mesma cegueira. No mais elevado grau de confiança que ele pode despertar, haverá sempre o perfume da dúvida — uma sensação entre o instintivo e o lógico de que, no fim das contas, deve haver sempre uma carta qualquer na manga. Esta dúvida, como parece óbvio, é mais do que justificada, porque ainda ainda está para nascer o homem merecedor de confiança ilimitada — a sua golpada espera, no máximo, por uma tentação suficiente. O problema do mundo não é que os homens sejam muito suspeitos neste sentido, mas antes que tendem a confiar demais — e de que ainda continuam a confiar noutros homens, mesmo depois de experiências amargas. Acredito que as mulheres sejam, sabiamente, menos sentimentais, tanto nisto como noutras coisas. Nenhuma mulher põe as mãos no fogo por um homem, nem age como se confiasse nele. A sua principal certeza assemelha-se à de um carteirista: a de que o guarda que o apanhou em flagrante o deixa ir em paz, desde que leve no bolso, bem arrecadado, o seu quinhão (*).

J. Eustáquio de Andrada, in A sabedoria ao alcance da juventude

(*) O ilustre Professor inspirou-se, por aqui, claramente, em Mencken.