30.4.15

Caderno Diário

Claude Monet, Medas de feno, 1884
Hoje, pareceu-me notar alguns traços de um Werther em ascensão no pássaro tenor que se aninhou por cima da janela. Talvez esteja a tentar atrair a minha atenção, para o apresentar a certas pessoas que conheço nos mundos da música. Como se fosse necessário fazer algo mais para ter o meu ouvido pleno do que acordar-me quando o sol ainda se espreguiça.
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No parágrafo acima, os leitores mais atentos notarão que a escolha de Porquoi me réveiller como ária demonstrativa das capacidades vocais do pássaro não será mera coincidência.
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Para se documentar para Bouvard et Pécouchet, Flaubert escreveu, a 25 de janeiro de 1880, que já tinha devorado mil e quinhentos livros. No final, a contagem terá chegado a cerca de dois mil. Esta superabundância de documentos permitiu-me não ser pedante, afirmou depois.
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Monet treinou-se a pintar um campo com medas de feno oitenta e três vezes.
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Anatole France resumiu bem este trabalho até que tudo pareça simples: A naturalidade é o que se acrescenta no fim.
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Acho que o pássaro, para além de frequentar a minha janela, anda a espreitar os meus livros.