5.4.15

Fernando Pessoa, esse poeta árabe

O fim do longo, inútil dia ensombra.
A mesma ‘sp’rança que não deu se escombra,
Prolixa... A vida é um mendigo bêbado
Que estende a mão à sua própria sombra.

Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça
Sonhos; e a ébria confluência humana
Vazia ecoa-se de raça em raça.

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.

Cada dia me traz com que ‘sperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da ‘sperança.
Mas vivo de ‘sperar e de cansar.

Raças da cor do ouro ou cor do cobre,
A mesma terra as tem e o sol as cobre,
Nem fica da cor de uma ou da cor de outra
Mais nada que lembrar, nem sob nem sobre.

Dos Ruba'iyat de Fernando Pessoa