25.4.15

O café do Dia da Liberdade

O Berto da Julinha estava mais perto da minha mesa, por isso consegui apreciar em pormenor a elegância do traje de Dia da Liberdade: camisola de moletão de um azul tão vivo como o dos sofás que estão na montra do loja de móveis da mulher desde a abertura, para venda, já lá vão cinco felizes anos, seis a fazer em julho; e calças a condizer, mas de molengão, no tom cinzento do Clio, benza-o Deus, que já passou os duzentos mil. O Doutor Jacinto, médico de clínica geral, um sábio paciente, diria que o Berto da Julinha era um rapaz forte, com os cento e dez quilos a arrendondarem a figura de um metro e sessenta e cinco, bem medidos. O corte de cabelo a pente três, deixava-lhe a cabeça tão brilhante quanto o cálice de branco, que se notava fresco pela condensação, aperitivo para o almoço, assim tomado ao meio-dia e meia hora, que eu confirmei no relógio do café do Chico. Do meu ângulo de visão mal conseguia ver o espetado do cabelo abrilhantinado do Quim Figueira, que, assim o percebi, tinha uma camisola de rugbi, azul escura, com finas riscas vermelhas. O símbolo, não o consegui descortinar, se fosse eu teria escolhido dos All Blacks da Nova Zelândia, minha equipa favorita no planeta, mas isso sou eu, e não vem ao caso. 
— E não deixam os moços beber álcool, lá nos Estados Unidos, antes dos vinte e um anos, afirmava o Berto.
— Mas podem entrar numa loja e comprar armas logo aos dezasseis e começam a matar-se uns aos outros, indignava-se o Quim.
— Por isso é que aquilo lá são todos malucos, rematou o Berto, conclusivo. Solenemente, como para firmar o pacto de entendimento, pegaram nos cálices de branco, e escorrupicharam-nos, e logo de seguida:
— Enche aqui, ò Chico, ouvi o Quim Figueira dizer, enquanto a cabeça oval do Berto oscilava, como aquela do cão de louça na traseira do Clio.
O Chico desviou os olhos das calças de cabedal preto da Francisquinha Miranda, que acabava de chegar, e que eu, se me pedissem opinião, diria que estavam demasiado justas, tirou a garrafa do frio, e atestou os cálices. A mulher do Chico, que não perde uma, desferiu-lhe um merecido piparote na orelha, antes de me entregar as minhas merecidas empadas de galinha, ainda quentes. À Francisquinha Miranda, por via de dúvidas, foi ela levar o café, enquanto o Chico, com ar falsamente amuado, resolveu entrar na conversa, fazendo eco do Berto:
— É um país de malucos, é pois, que a gente bem vê nos filmes.
E se a gente vê nos filmes, deve ser verdade, penso eu, já com a água a borbulhar na boca, das empadas a escaldar na mão. Acho que irão muito bem com um branco fresco, daqui a pouco, quando fizer um brinde ao Dia, este, o da Liberdade.