3.4.15

Os problemas da modernidade

— Moraes, meu caro, você que é um homem lido, para além de investido, já leu Huxley, por certo.

— Mas claro, Andrada, o Admirá… 

— Homem, mas acha que eu lhe ia falar de trivialidades, do que toda a gente e o seu periquito leram? Pois não leu The Perennial Philosophy, Moraes, um homem do seu arcaboiço intelectual? Até Orchidée, esta estrela que ilumina a Via Láctea que é o meu ocaso, o tem como livro de cabeceira, n’est-ce pas ma precieuse perle de pluie?

Orchidée não pareceu ouvir o digníssimo professor, ocupada que estava com o ecrã do telefone.

— Pois eu, Andrada confesso que esse… 

— Afirma Huxley, por lá, que os homens de espírito, os criadores do intelecto, são de fraca compleição, e que é por isso que a sociedade os protege das agruras do mundo, dando-lhes acolhimento na academia, no mosteiro, no laboratório de investigação. Os que nascem contemplativos, diz ele, ou morrem cedo, ou estão demasiado ocupados a sobreviver para serem capazes de devotar atenção a mais alguma coisa. Daí andarem ao colo da sociedade, como se fossem infantes. Ora veja ali o nosso estimado amigo J., um contemplativo exemplar: fraco de corpo, ainda mais de espírito, deixado a si só feneceria de inanição. Não se lhe conhece obra, tirando aquele pasquim que penosamente mantém nas internetes.

Pauvre, pauvre J. — lamentou Orchidée. 

— Mas, oh Andrada, bem sabe que eu, aqui onde me vê, sou inteiramente ASICS, que é como quem diz, Anima Sana In Corpore Sano — protestou o pauvre J. Vou ao health club como à igreja.

— O que, meu caríssimo J., no meu dicionário é sinónimo para não colocar lá os pés — retorquiu o ilustre Eustáquio de Andrada. Pois não acha, oh Moraes?

Pauvre, pauvre J. — tornou, consternada, a bela Orchidée. 

Andrade fez aquele sorriso de mefistófeles que solidificou a sua lenda nos corredores do Magdalen College, com a fama de fazer as orais mais temíveis de história de Oxford. 

O estimável J., obviamente combalido no seu amor próprio, refugiava-se com afinco no seu telefone inteligente. Orchidée, com todos os dedos e olhos no telefone, sorria como se estivesse numa sessão fotográfica para o seu portfolio book

— Pois não concorda você, oh Moraes: de que serve um homem ler Tertuliano, que escreveu há quase dois mil anos, se o seu invólucro frágil não aguenta um sopro de vento mais forte, dos que se encontram nas avenidas da vida? Já não se fabrica gente como nós, Moraes, robustos de corpo, rijos de espírito, digo-lhe eu. Partiram o molde, não foi, oh Moraes?

Orchidée apontava o telefone para a cara sorridente; J. fazia olhos asiáticos, enquanto dividia o sorriso entre o ecrã onde aparecia o sorriso de Orchidée, e o dito sorriso, ao vivo, em frente. 

— Pois foi, oh Andrada, partiram o molde. Partiram o molde — repeti.