1.5.15

Caderno Diário

O pássaro é barítono, concluí hoje, dia feriado, pelas seis da manhã. Foi quando estava a pensar que os seus trinados se assemelhavam aos sons que ouço na cadeira de barbeiro, de tesoura que diria tenor. Mas notei, intervalados com os harpejos habituais, outros, mais baixos. Talvez este pássaro tenha andado a ouvir os discos de Bryn Terfel, baixo-barítono, de certo familiar meu, e me pretenda impressionar, a troco das horas que não me deixa dormir, nem sequer hoje. Ou, talvez, em vez de um pássaro, sejam afinal dois — o início de uma história de paixão, a desenrolar-se no meu beiral. Se este blog já tinha um pendor romântico, temo pelo seguimento.
A atração do perigo está na origem de todas as grandes paixões, afirma Anatole France. Não há voluptuosidade sem vertigem. O prazer combinado com o medo, inebria.
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Ao trucidar-me o sono e a paciência, o pássaro sabe ao que se arrisca. Mas deve ter andado a ler Anatole por cima do meu ombro e com a sua paixão, optou por se perder na vertigem. Inebriar-se.