13.5.15

Caderno Diário

Deve ser uma conspiração: ouço pássaros a cantar nos sítios mais improváveis. Onde me sento agora, com o computador ao colo, escuto-os a cantar, a uns metros, calculo que apenas a uns metros, de uns poemas do Ramos Rosa. Ontem à tarde, por cima, e não achei que fosse muito acima, de uns parágrafos do Vergílio Ferreira, também vieram, dar nota dos seus dons. E ainda hoje ao amanhecer, aí sim, um pouco mais longe de um rendilhado da Agustina, mas de forma que eu conseguia ouvir, lá estavam eles. O livro entre mãos influencia a forma como escuto o canto. E provavelmente, escutar o canto, vai mudando o modo como leio. Agora, apenas debico — leitura de pássaro, portanto. 
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Ontem ouvi de um helenista, de quem dedicou toda a vida a estudar a língua e a cultura gregas, e já passou o meio século de vida, que ainda lhe faltam mais vinte anos, pelo menos, para saber o que desejaria, dessa mesma língua e da cultura que ela representa. Aprendi, também, que a palavra êxtase, tem origem em escada. Depois, ao subir, não uma escada, mas uma rua fervilhando de gente, ao fim da tarde, pensei se a vida não é, afinal, a tal dita escada, os degraus que se logram subir — e  o êxtase, a consciência, que nos bate de frente, de que há sempre mais degraus a subir, de onde aqueles vieram. 
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Dois colegas disto dos blogs, aqui e aqui, mostraram, à vol d’oiseau, como é possível colocar tantos de nós, sem ideias pré-concebidas, a olhar para obras de arte, em minucioso pormenor — com notável ironia, bom gosto e enorme prazer. Isto, afinal, sempre são mais do que blogs.